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25 September 2009 @ 01:53 am
 - Merda – Nathaniel Hayes disse, recuperando-se da queda. Estava na Escócia dos anos noventa. – Merda, merda...
 
 
19 August 2009 @ 01:06 am
 O primeiro dia de trabalho de Matilda Murdoch começou, na verdade, à noite. Toda essa história de ser babá parecia ainda um pouco estranha para Matilda, e, de fato, quando ela mencionara a possibilidade para a irmã, havia meio que esperado que Marisa fosse fazê-la descartar a idéia. Contra suas expectativas, porém, foi a própria irmã que a levou de carro até a porta dos Harrington, onde Matilda se encontrava naquele momento, uma pequenina mala na mão, com basicamente o conteúdo que precisaria para dormir aquela noite ali, ainda incerta se apertaria a campainha ou não. Ela olhou para trás, ligeiramente cogitando poder voltar atrás na idéia.  Mas o carro de Marisa já havia partido. A porta abriu atrás da garota sem que ela, em seu estado de distração, pudesse se dar conta.

 

        - Você chegou – fez Sean, com um sorriso de satisfação tão evidente que fez com que Matilda se perguntasse o que havia de tão errado em tomar conta de uma garotinha como Brìghde. – Brìghde está no quarto dela. Meus pais já saíram.

 

        Matilda assentiu,  e entrou, olhando em volta do minúsculo hall de entrada da casa. À sua esquerda, havia um pequeno closet para casacos e chapéus. À direita, um espelho e um aparador.

 

        - Vou te mostrar o quarto dela – avisou Sean, enquanto seguia apressadamente pela casa adentro. Ele parecia estar com bastante pressa, Matilda notou.

 

        Ele empacou bruscamente em frente à porta do quarto de Brìghde. A porta estava entreaberta, mas ele não deixou de cumprir o protocolo e bater duas vezes antes de empurrar e entrar.  Brìghde estava sentada no chão, e aparentemente todos os seus bonecos também estavam, em uma demonstração da grande variedade do reino animal: havia bonecas humanas, uma girafa de pelúcia, um elefante de plástico, vários pôneis com caudas coloridas e alguns brinquedos que Matilda teria reconhecido a espécie, caso eles tivessem cabeça. O olhar que Sean lançou sobre o quarto foi de reprovação, mas ele se limitou a balançar a cabeça e voltou-se para Matilda.

 

        - Peço desculpas pelo estado do quarto da minha irmã.

       

        Brìghde olhou para o irmão com estudado desprezo e um ar de pequena adulta. Ela se levantou e puxou Matilda pela mão.

 

        - Matilda, obrigada por ter vindo – disse ela. – Eu preparei o quarto especialmente para a sua visita.

 

        Matilda sorriu, se sentindo confortável pela primeira vez frente à lógica da menina. Brìghde voltou o olhar ao irmão.

 

        - Pode ir – disse ela, uma sutil nota de chateação na voz. – Para o seu encontro secreto.

 

        Sean ficou levemente corado.

 

        - Não é um encontro – ele frisou.

 

        Brìghde deu de ombros. Sean revirou os olhos e voltou-se para Matilda.

 

        - Eu volto tarde. Nos falamos pela manhã.

 

        - Se alguma coisa acontecer, pra quem devemos ligar? – Brìghde perguntou em tom de conversação. – Papai e mamãe estão em Inverness.

 

        - Não vai acontecer nada – Sean desconversou rapidamente. – Você pode ligar para o corpo de bombeiros, qualquer coisa.

 

Por trás de Matilda, Brìghde mostrou a língua para o irmão. Sean apenas permaneceu sério, e, com um último cumprimento, partiu. Brìghde esperou pelo barulho da porta da frente da casa, que veio em alguns segundos, para se manifestar. Sua expressão parecia completamente mudada.

 

- E então? – fez ela.

 

Matilda ergueu as sobrancelhas.

 

- Sim?

 

- Você disse que me ensinaria a fazer chocolate quente.

 

        **

       

        Marisa estacionou o carro na esquina da sede do Helmeth Report. Às 9 horas da noite, em Helmeth naquela época do ano, as ruas estavam absolutamente desertas. Ela percebeu que sua respiração havia se tornado uma fumaça branca no ar, e foi só então que se dera conta do frio. Acabara de deixar Matilda na casa de uma das famílias da cidade para seu primeiro dia de trabalho e Rudolph, como de hábito, dormia pesadamente depois do jantar. Ela abriu a porta do jornal, ainda ligeiramente inábil com a chave. Obviamente, nenhum dos onze funcionários do periódico estava mais lá.

 

Ela caminhou lentamente entre as baias, analisando pela primeira vez de fato o lugar. Ela não havia realmente feito isso antes. Preocupara-se apenas com a manchete do primeiro dia. Ela tamborilou os dedos pelas cadeiras, observando desinteressadamente o conteúdo de cada mesa: porta-retratos com fotos de família, telefones, e os tais modernos computadores que McBain havia feito questão de frisar como indicativo da qualidade do jornal: idênticos caixotes amarelados com telas pretas ocupavam boa parte das mesas.  A única máquina de escrever era aquela da antiga sala de McBain. A placa com o nome dele permanecia lá, ela percebeu.

 

        Entrou na sala, sentou displicentemente na própria escrivaninha e consultou o relógio no pulso. Ele chegaria a qualquer momento. Ele disse que viria. Talvez ela estivesse ficando maluca em querer propor um acordo desse nível,  mas ela não se importava. Abriu as antigas gavetas de McBain, agora suas, sem procurar por nada em específico. Estavam vazias, de qualquer maneira. Ela acendeu um cigarro, seu primeiro no dia e a nicotina veio como um prazer contido e aguardado.

 

        Fechou os olhos e exalou profundamente.  Ela escutou alguém entrar pela porta, e aguardou. Instantes depois, ele entrou pela sala. Ela sorriu.

 

**

 

        Como ficou provado mais tarde, a sessão culinária de Matilda e Brìghde não ficou limitada ao chocolate quente: primeiro vieram os biscoitinhos amanteigados para acompanhar, uma receita simples que Matilda não viu problema em que Brìghde executasse. A calda de chocolate, segundo Brìghde, foi uma evolução natural. Nunca tendo antes cuidado de uma criança, Matilda não se deu conta de que logo já se passava da meia-noite.

 

        - Você tem que ir dormir – Matilda avisou, subitamente assustada, enquanto secava a xícara que usaram para medir a farinha de trigo.

 

        Brìghde terminava de ajeitar os biscoitos em uma caixinha. Ela ainda parecia hiperativa.

 

        - Não estou com sono – ela avisou.

 

        Matilda suspirou, incerta sobre o que fazer. Ela sequer havia tido a oportunidade de conhecer os pais da menina, para que pudesse ter uma opinião sobre o quão rígidos eles seriam a respeito do horário de Brìghde ir para a cama.

       

        - Você tem escola amanhã, não tem? – Matilda argumentou. – Não é bom dormir tão tarde na sua idade, ou você não vai crescer.

 

        Brìghde fez uma careta, uma imagem sua velha e anã tendo acabado de passar pela sua cabeça.

 

        - Você sempre dormiu cedo quando tinha escola no dia seguinte?

 

        Matilda forçou um sorriso, o olhar levemente nostálgico.

 

        - Bem, eu sempre dormi cedo, por hábito. Mas eu não tinha escola.

 

        Brìghde ficou boquiaberta.

 

        - Você não sabe ler?

 

        Matilda riu.

 

        - Não é isso. Eu tive aulas. Mas não em uma escola. Fui educada em casa, pela minha tia.

 

        Brìghde ergueu as sobrancelhas, imaginando as maravilhas de não precisar freqüentar uma escola. Em seguida, pareceu se lembrar subitamente de alguma coisa:

 

        - Foi sua tia, não foi? A primeira vitima do monstro?

       

        Os olhos de Matilda se arregalaram, surpreendida pela pergunta, mas ela não encarou Brìghde. Continuou a guardar a louça.

 

        - Sim. É o que parece, pelo menos.

 

        - Ele matou Maisy também. Ela era da minha turma de natação.

 

        Matilda pareceu subitamente mortificada. Lembrava bem de quando uma menina pequena, mais ou menos da idade de Brìghde, havia sido morta pela Coisa. Puxou uma cadeira em frente à Brìghde, na mesa de madeira da cozinha dos Harrington, o pano de prato ainda na mão.

 

        - Eu sinto muito.

 

        - Está tudo bem - fez Brìghde. – Eu não acho mais que o monstro esteja por perto, de qualquer maneira.

 

        Matilda não respondeu. Seus pensamentos estavam muito longe dali.

 

        - Você está com saudades da sua tia? – Brìghde quis saber.

 

        Matilda assentiu. Ela forçou um sorriso, mas Brìghde compreendeu a melancolia por trás dele. Ela pulou de sua cadeira em direção à geladeira e entregou um copo de água à Matilda, que o bebeu devagar.

 

        - Vamos dormir – fez Matilda, por sob a respiração, e, dessa vez, Brìghde não contestou.

 

        

 
 
14 August 2009 @ 10:00 pm

A velha acendeu o interruptor falho da sala. A luz piscou algumas vezes antes de se estabilizar. A velha, então, preencheu uma xícara de porcelana antiga, uma herança familiar, com o restante de um café passado e amargo. Adicionou uma dose pouco humilde do conhaque precioso que guardava. Beber a mistura pareceu renovar o ânimo da velha, que, esfregando os olhos vermelhos de irritação, soltou um suspirou cansado. Foi somente quando pousou a xícara vazia que percebeu não estar sozinha. O homem alto, de costas para ela, observava a rua além de uma das janelas. Ele era quieto – quieto demais. Poderia ter passado despercebido em meios às sombras confusas da casa. Talvez houvesse apunhalado o coração da velha sem que ela jamais soubesse ter tido companhia.

A velha abriu a boca para gritar por uma de suas garotas – mas, com uma súbita consciência, distinguiu aquela silhueta. Sabia quem era o homem. E, embora o conhecimento não lhe proporcionasse nenhuma paz interna, conseguiu calá-la durante algum tempo, como um choque que paralisa. Ela foi despertada com um susto – algo que passou roçando uma de suas pernas desgastadas. Era o dálmata. O cão ignorou a própria dona para se aproximar do homem, tentar lamber sua mão; o homem olhou para baixo, seu semblante indecifrável, mas não reagiu. Virou o rosto para encarar a velha.

- Eu não o convidei – disse ela.

- Não importa – o homem respondeu.

Afastou o dálmata sem precisar de um uso gratuito de violência – e o cão, como se reconhecesse um alfa maior, obedeceu, ganindo levemente. A velha não se moveu. Esperou em silêncio.

- Você esteve com o meu filho há algum tempo – o homem afirmou.

- Sim.

- E acredito que recentemente repassou informações a terceiros.

A velha não respondeu imediatamente. Fitou o cão dálmata. A familiaridade que o animal parecia ter com o visitante era inquietante. Como ele conseguira entrar?

- Deveria checar melhor suas fontes – a velha aconselhou. Ofereceu o conhaque. – Aceita? É muito bom.

- Não – o homem negou. – Mas obrigado.

- Harvey. Não esperava vê-lo tão cedo, Hervé, meu menino. Presumo que – e a voz da velha se tornou perceptivelmente amargurada – quem quer que tenha deixado você entrar também lhe contou muitas histórias.

- Quem era ele? – Harvey perguntou. – O que ele queria?

A velha riu.

- Ah, sim. Ele esteve aqui.

- Quem?

- O garoto Clancy.

E acompanhou com certo prazer a expressão de Harvey perder sua austeridade.

- Muito alto. Muito parecido com o pai. Você com certeza se lembra.

- O que contou a ele?

Agora Harvey parecia muito perto de esganar a velha com as próprias mãos. O tipo de compostura que insistia em mantê-lo onde estava era um mistério. Não haveria dificuldade alguma em matá-la – não para ele, ao menos; e a velha reconhecia o fato, como todas as pessoas devem, eventualmente, reconhecer a própria mortalidade.

- Ele queria saber a respeito de corações.

- E a espada – Harvey completou.

- A espada, sim. Não sei como ele chegou a isso, mas sabia da espada muito antes que eu pudesse abrir a boca. Só veio procurar uma confirmação. Vocês deixam muitas pontas soltas.

- Alguém o instigou.

- Mas não fui eu, Harvey. Eu garanto que não. Não precisam da minha ajuda.

- Você vendeu o coração a Sherwood.

A velha meneou a cabeça.

- É verdade. Ele tinha uma oferta.

- Sherwood arrumou mais problemas estando morto do que arrumava quando vivo.

- Está me culpando por ganhar a vida? – a velha sorriu. – Harvey, você o trouxe a mim. Você também é culpado pelo vício de Sherwood.

- E você é culpada pelo caos que eu precisarei dissipar. Acho que não compreende os problemas que me causou.

- Negócios são negócios, Harvey.

Então Harvey cessou com suas palavras. Ele deu um único sorriso. E aquele sorriso brilhou com uma inconfundível ameaça. A velha estremeceu.

- Sim. – disse Harvey. – Eu acho que sim.

Ele caminhou até a velha – que recuou instintivamente, batendo contra a mesinha, fazendo com que garrafa de conhaque e xícara vibrassem. Harvey segurou o rosto enrugado da velha com ambas as mãos, beijando a testa da mesma. Foi um beijo suave e frio. A velha não reagiu.

- Você compreende – Harvey sussurrou.

E quebrou o pescoço da velha com um único movimento. Por um momento, o corpo da mulher continuou suspenso, mantido pelos dedos de Harvey, seus olhos arregalados observando um mundo que já não mais habitava. Então, quando ele finalmente a soltou, a velha despencou sobre o chão. Harvey passou um pé por cima do cadáver e caminhou até o corredor. Abriu a porta de um dos muitos quartos e encontrou a menina miúda que a velha mantivera como criada. A menina sorriu.

- Pronto – Harvey disse. – Um trato é um trato. Você está livre.

A menina se aproximou da porta. Tocou um ponto específico entre os dois seios. Sua camisola puída revelava uma cicatriz que marcava o meio exato do tórax. A menina pareceu distante.

- Não. Ainda não estou – revelou.

- Ela está morta.

- Ainda está viva.

Harvey voltou os olhos para o aposento que acabara de deixar. Ele viu, primeiramente, a mão encarquilhada da velha se estender para dentro do corredor. De súbito, então, o resto do cadáver estava a se arrastar pelo chão imundo, o pescoço da velha pendendo de um ângulo pouco natural, sem nenhum suporte. A garganta torcida da mulher parecia tentar produzir algum som chiado.

- Ele pagou com um beijo – a menina explicou. – Aquele homem do clã Clancy. Ela me obrigou a entregá-lo.

Harvey compreendeu a questão. A menina colocou o punhal que pertencera à velha sobre uma de suas mãos. Harvey caminhou até o cadáver suplicante e fincou a lâmina sobre a base da coluna da velha. O corpo estremeceu, como se estivesse sofrendo uma convulsão, e parou repentinamente. Harvey puxou o punhal de volta.

- Fique com ele – ela disse. – Era a única coisa que a tornava forte.

Harvey conhecia muito bem as propriedades daquela arma. Ela abria peitos e arrancava corações. Matava o Bom Povo e suas crias depravadas. Harvey contemplou o próprio reflexo exibido na lâmina.  Ele limpou o sangue com a língua.

- Pegue seu coração – mandou. – Está livre.

A garota, satisfeita, subiu as escadas que levavam ao andar de cima. Harvey escutou sua busca desenfreada pelo órgão que lhe haviam tomado, revirando caixas e móveis, gritando por sua liberdade.

O corpo da velha seguia inerte. Ela não voltaria a se levantar. O dálmata de estimação surgiu para lamber os restos mortais de sua dona.

Harvey não tinha mais assuntos pendentes que pudesse tratar ali.

 
 
13 August 2009 @ 04:01 pm

Scotty inadvertidamente apavorou Gertrude quando abriu a porta principal de supetão, parecendo, pálido como nunca, mais irritado do que o habitual, retornar do mundo dos mortos. Ele passou pela criada e acenou brevemente com a cabeça, ignorando seu espanto.

- Gertrude – disse.

- O senhor voltou – Gertrude deixou escapar uma exclamação.

- Só por alguns minutos.

O escritório de William estava vazio. Scotty abriu um gabinete e dali retirou um molho de chaves antigo. Quando descia as escadas com uma maleta pesada e metálica, Gertrude, levemente aturdida, aguardava aos pés do primeiro degrau. Scotty parou.

- Você está bem? – perguntou.

Gertrude concordou efusivamente.

- Para onde vai? – ela quis saber.

- Stonehaven – Scotty respondeu. – Fica do outro lado da cidade.

- Seu pai não sabe que voltou. Quer que eu deixe algum recado?

Scotty ponderou rapidamente.

- Diga que estou aqui. E vivo.

Percebeu que Gertrude encarava sua maleta.

- Ferramentas de trabalho – ele explicou.

E partiu.

 

 

Stonehaven era uma casa menor do que a mansão habitada pelos Whitney – chegara às mãos da família através do lado Brennan, em vista do casamento da única filha do clã com o tataravô de Scotty. O lugar atravessava os anos permanecendo comumente inabitado. As gerações de Whitney nunca eram vastas o bastante para que se espalhassem pelas muitas propriedades que carregavam com o nome. Scotty havia sido feito o dono legal de Stonehaven muito antes de sequer aprender a engatinhar. Fora insistência de Viviane.

- É muito impressionante – Wolfgang comentou. – Tudo isso me parece tremendamente caro para estar tão vazio.

A ausência de móveis era um problema.

- Minha tia, Jocelyn, gostava da mobília – Scotty explicou. – Eu fiquei feliz em doá-la.

- Grande erro – Wolfgang sorriu.

Eugene entrou carregando alguns caixotes. Stonehaven conservava suas cortinas pesadas – algumas para sempre estragadas por barras infestadas de traças. Eugene deu um sorriso leve e estalou a língua.

- Você é o pior proprietário que existe – declarou.

A prioridade das cortinas era mínima.

- Coloque a caixa no chão – Scotty disse.

- Onde pretende montar as coisas?

- Eu acho que a sala é proporcionalmente adequada – Wolfgang sugeriu. –  Não concorda.

- Se diz – o irmão cedeu.

- Scotty, conseguiu se divertir em Londres?

- Nem imagina como.

- Uma orgia atrás da outra.

- Mas deveria avisar aos seus amigos que eu não jogo pelo outro time. Ainda há montanhas que eu não vou escalar.

Wolfgang pareceu satisfeito.

- Aquele clube não é para homossexuais, Scotty; é para os naturalmente perturbados. Eu não teria guiado você até lá se achasse que não poderia lidar com eles. Quem bateu em você?

- Um drogado de dois metros de altura. Pelo menos não estava nu. Um pouco mais e talvez ele tivesse ou partido o meu crânio ou me estuprado.

Eugene, alheio à conversa, abriu a maleta metálica de Scotty. O que encontrou pareceu assustá-lo.

- Você pode ser preso por isso – disse.

- Eu sei – afirmou Scotty.

Eugene ergueu um frasco de palitoxina.

- Onde conseguiu tudo isso?

- Faculdade – Scotty explicou. – O resto não foi complicado. Algumas pessoas me vendem, algumas pessoas me dão de graça; algumas precisam ser subornadas.

- Ignore o olhar de desaprovação de Eugene – Wolfgang disse. – Ele só está com inveja dos seus brinquedinhos. Da última vez em que Eugene teve algo do tipo, precisou dar a descarga em tudo depois de uma batida policial. Viver em Londres era uma aventura.

- Não estamos falando de drogas leves – Eugene, antes agachado diante da maleta, agora estava de pé, limpando a mão sobre as calças. – Espero que saiba o que está fazendo, Scotty. Vai matar alguém?

A pergunta pareceu tão sincera que nem mesmo Wolfgang encontrou uma brecha para questionar sua seriedade. Scotty cruzou os braços em silêncio. Olhou para a maleta com uma expressão duvidosa. Adoraria preparar um coquetel especial para Sibilla; encarou, então, Eugene.

- Não agora.

Quando assentaram as coisas minimamente, Scotty encontrou tempo para um paliativo. Encheu a seringa com uma dose tóxica pequena. Ele encarou o líquido oleoso por alguns instantes antes de injetá-lo no braço. Um leve ardor se espalhou por seus músculos.

- O que é isso? – perguntou Eugene.

- Isso me ajuda a cicatrizar – Scotty explicou. – É como o Natal chegando mais cedo.

O efeito que sentiu foi imediato. As feridas pareceram mais amenas. Os cortes quase desapareciam diante de seus olhos. O sangue de Scotty era sua própria salvação; precisava apenas de um incentivo leve para fazer seu trabalho natural com maior empenho.

Havia um som estranho concedendo vida breve à casa. Vinha de um rádio que Wolfgang encontrara. Scotty pensava já ter ouvido aquela música fúnebre em algum local.

- O que eu odeio – ele cerrou os dentes. – é a turbulência que segue. Sinto que vou enlouquecer se ficar parado – e contraiu o braço.

- Onde está Dahlia quando precisa dela? – Wolfgang sorriu.

- Eu não acho que Dahlia e eu temos um futuro brilhante.

- Não?

Scotty soltou uma risada depreciativa.

- De alguma forma eu acho que convenci os amigos dela de que sou um prostituto com certa predileção por apanhar pelas ruas.

- E ela não fica feliz com isso?

- Dahlia – Scotty descartou a seringa. Devolveu o frasco usado ao lugar de direito. – Quer casamento e filhos com o homem errado. Fim.

O destino de Dahlia não parecia ser a preocupação principal de Wolfgang.

- Você encontrou outra? – ele perguntou.

A imagem de Norwenna veio sem convite. Scotty não soube exatamente porque a convocara. Mas aquilo o distraiu por alguns instantes. Fechou os olhos.

- Não – ele disse.

- Não me decepcione, Scotty. Sempre tenha um plano B.

A toxina ainda corria pelo corpo de Scotty como se estivesse em um parque de diversões. Seus pensamentos iam de Sibilla a Dahlia. Passavam por William – e por uma pergunta que ainda não fizera ao pai. Mas foi em um rosto assustado que Scotty se focou.

- Meu plano B não envolve sexo no momento. Há uma coisa que eu preciso fazer – e ele vestiu o paletó.

 

 

 

Gerald Cunningham apreciava o final do dia através dos vidros sujos de sua estufa. A enfermeira recente havia cedido uma cadeira de rodas antigas para seu uso pessoal. Ele agradecia – e sentia que as pernas enfraqueciam a cada dia que passava.

As orquídeas de Gerald não sorriam. As dálias não sorriam. As dálias eram as mais preciosas que tinha. Gerald afagava seus galhos murchos com certa infelicidade. A estufa inteira parecia haver se transformado em uma selva desde que adoecera. Já não tinha meios de protegê-las. A idéia quase encheu os olhos de Gerald com lágrimas.

Ele não notou quando Scotty chegou.

- Gerald? – perguntou o rapaz.

Gerald olhou para trás com pavor espantado no rosto. Encarou Scotty como se não o conhecesse – e talvez, dado seu estado único, não conhecesse de verdade. Mas então o susto imediato passou. Gerald pareceu sereno em sua cadeira.

- É você – constatou ele.

- Vim lhe entregar uma coisa – Scotty contou.

- Dahlia está com você?

- Não, não está.

Scotty pousou um frasco incolor sobre a mesa.

- É um presente – disse. – Meu Deus – ele fitou Gerald. – Você está lúcido.

- Acontece. De tempos em tempo – Gerald ergueu as mãos para tocar a própria cabeça; mas, então, pareceu temer. – Quando as vozes se calam.

Ele suspirou.

- Eu acho que estou estragando a vida da minha filha. A mãe dela já não era a mais sã das pessoas. Ela se preocupa demais. Não queria Dahlia aqui, nesta cidade. E você...

Gerald vistoriou Scotty brevemente.

- Dahlia deveria ter menos problemas – Scotty concordou. – Eu, na verdade, entrei em um processo de exterminá-los.

Aquilo fez com que Gerald encarasse o frasco de Scotty com certo temor.

- Você vai me envenenar?

- Não. É para quando sentir dor.

A menção de dor guiou a atenção de Gerald de volta às plantas. Ele ergueu o dedo indicador para acariciar um galho como teria feito com um cachorrinho de estimação – ou com algo que muito adorasse. Quando tornou a encarar Scotty, sua expressão parecia carregar uma surpresa renovada, os olhos atentos, mas vazios.

- Quem é você, mesmo? – perguntou. – Você é um deles.

Mas Scotty negou com um aceno de cabeça.

- Até mais, Gerald – disse. Caminhou para fora da estufa.

 
 
12 August 2009 @ 07:55 pm

Stuart não conseguiu captar alguma estranheza particular quando atravessou a sala e avistou a filha parada diante da porta de entrada, estática, o olhar perdido em um ponto qualquer. Ela parecia alheia aos demais movimentos da casa. Stuart notou – brevemente – que Brìghde emagrecera bastante durante o inverno, sem nenhuma explicação aparente. Seu rosto parecia marcado por olheiras suaves – mas incomuns para uma criança tão nova. Era esperado, ele pensava, que meninas eventualmente perdessem sua gordura de bebê acumulada, que pudessem florescer, crescer e ganhar pernas. Stuart, assobiando, puxou seu guia de viagens da prateleira. A casa não era grande o bastante para uma biblioteca própria.

- Pai – ouviu Brìghde dizer.

- Sim? – perguntou.

A menina ficou em silêncio. Girou sobre os calcanhares para que pudesse encarar Stuart. Seus olhos lúcidos e sérios pareciam guardar algum plano perverso. Stuart apenas viu o próprio cenho enrugar em face à expressão.

- Eu preciso de dinheiro – disse Brìghde. – Tive uma idéia fantástica.

- Dinheiro?

- Eu preciso de madeira, na verdade.

- Para que precisa de madeira?

- Para construir uma coisa.

- Ora, mas que coisa, Brìghde?

- Uma barraca.

Stuart ponderou a respeito.

- Bem, não precisa comprar. Você pode pedir os restos do armário que os Massey estavam reformando. Eu acho que ainda estão lá no quintal. E aí pode brincar.

Brìghde considerou aquela proposta em silêncio. Pareceu fazer sentido, porque ela mordeu os lábios, pensativa, e então abriu a porta de casa, deixando Stuart sozinho. O pai mergulhava em sua leitura, desvendando fatos a respeito do Nepal, quando percebeu, através da janela, cerca de dez minutos depois, Brìghde retornando da casa vizinha, uma placa de madeira sendo arrastada atrás de si. Curioso, Stuart fechou o livro, observando a filha; Brìghde ainda fez mais algumas incursões além da cerca antes de haver reunido o material desejado. Ela, então, desapareceu uma vez mais, tomando a direção da garagem. Quando voltou, trazia uma caixa de ferramentas. Pareceu finalmente sossegar.

Stuart retomou a leitura quando julgou que Brìghde não mais sairia do lugar – permanecendo à vista, no quintal. Ouvia ocasionalmente estocadas fortes e sem ritmo. Mas já estava absorto demais no livro para prestar atenção mais minuciosa. Sentiu somente o aroma do café fresco que Deborah, vinda da cozinha, pousou sobre a mesa. A mulher pareceu perceber a filha.

- O que ela está fazendo lá? – Deborah perguntou.

Stuart deu de ombros.

- Construindo uma arca – disse. – Quero dizer, uma barraca – corrigiu. – Disse que teve uma idéia fantástica.

- Uma barraca? – Deborah se aproximou da janela. Após alguns segundos de observação, ela levou a mão à boca. – Oh, Deus, Stuart, aquilo são pregos? Ela está martelando pregos?

Stuart ergueu os olhos do livro. Brìghde acertava as placas de madeira com um martelo como se tentasse partir o crânio de um animal.

- Stuart, como pôde deixar isso acontecer? – Deborah perguntou.

- Deb, é Brìghde. Ela não vai se machucar – o marido garantiu.

Deborah lançou um olhar levemente azedo ao marido, decerto irritada por sua tendência a sempre mostrar compreensão pelo caso de Brìghde. A irritação passou tão rapidamente quanto veio. Deborah, novamente encarando a filha à distância, vendo Brìghde, irritada, chutar a madeira, suspirou.

- Estou preocupada com ela – admitiu a mulher.

Stuart riu.

- Brìghde vai ficar bem, Deborah. Você já conseguiu alguma coisa, afinal, que foi adiantá-la na escola. E tudo deu certo.

- Ela deveria ter mais amigos – Deborah considerou; balançou a cabeça, como se espantasse o pequeno problema. – Bem, eu estava pensando – podemos fazer um pouco de economia e dar uma festa de princesa quando o aniversário dela chegar.

Stuart, confuso, encarou a esposa, empurrando os óculos para cima.

- O que é uma festa de princesa? – perguntou.

- É algo que as garotas fazem. Elas se fantasiam e comem doces.

- Não é muito diferente de uma festa de criança normal.

- Bem, poderíamos armar uma tenda no quintal, se houver espaço. E fazer uma mesa de chá.

- O que você quiser, meu bem. Mas tem de saber o que Brìghde deseja. Ela não parece gostar muito de festas.

- Todas as garotas gostam. Mas, já que estamos falando dos nossos filhos, Sean não parece nada bem. Aquele negócio do Sr. McBain deixou ele muito decepcionado.

- O que houve com o Sr. McBain?

Deborah pareceu surpresa.

- Bem, você não sabe? Ele vendeu o jornal. Foi embora da cidade.

Stuart ainda fitava a mulher com incredulidade. Bufou uma risada curta.

- É mesmo? Mas que coisa. O Sr. McBain. Quem diria. Bem, Sean o tinha em alta conta...

- Stuart, você não lê os jornais? Você sequer vive em Helmeth, Stu?

Mas Stuart apenas ergueu o livro que lia para exibir a capa à mulher.

- Eu vivo no Nepal, atualmente – explicou.

As marteladas de Brìghde continuavam a soar. Deborah pareceu ansiosa.

- Essa história de pregos ainda está me incomodando – e abandonou a sala.

 

 

Brìghde tentava compreender a anatomia de sua barraca quando avistou a mãe deixando a casa, enrolada em seu roupão matinal, para se aproximar. A menina soltou um resmungou baixo. Voltou a martelar como se nada houvesse acontecido. Deborah, um sorriso grande no rosto, inclinou-se levemente para vistoriar o trabalho da menina.

- Brìghde, o que está fazendo aí? – perguntou.

- É uma barraca.

- Bem, você poderia ter pedido para o seu pai pregá-la. Seria melhor, não?

- Não, eu estou bem. Ele queria ler.

- Mas pregos são perigosos. Aqui, me deixe tentar – Deborah agarrou o martelo de Brìghde.

A menina não cedeu. Puxou de volta com uma risada forçada.

- Está tudo bem, mãe – quis convencê-la.

- Por que quer construir uma barraca?

- Bem...

Brìghde parou o que fazia. Ela inspirou profundamente, cansada, mas com a dramaticidade de uma visionária.

- Eu vi algumas crianças vendendo limonada gelada. E pensei que posso ganhar dinheiro com isso.

Deborah não pareceu entender.

- Limonada?

- Limonada gelada.

- Mas, Brìghde, é inverno.

- Eu sei, mas suíços tomam sorvete vivendo na Suíça, então faz algum sentido – ela explicou. – Você não acha?

- Mas onde vai montar sua barraca, Brìghde?

- No centro. Muita gente passa por lá.

- Mas precisa de permissão. Não pode simplesmente montar uma barraca no meio da calçada.

Brìghde estranhou o fato.

- Não? Por quê? Bruno montou a dele.

- Porque a calçada foi feita para pessoas andarem. Não pode ter uma barraca lá.

Brìghde encarou seu Frankenstein em silêncio.

- Então vou pedir permissão para alguém.

Deborah ainda parecia um pouco apreensiva, embora tentasse disfarçar seus sentimentos com um sorriso. Brìghde não pôde não encará-la com compaixão.

- Está tudo bem, mãe – garantiu. – Eu sei o que estou fazendo.

 

 

Ela vestiu seu suéter de lã antes de sair. Considerava levar um carrinho de mão para carregar a barraca desmontada – mas então descobriu que não tinha peso o bastante para empurrá-lo. Ficou a encarar sua pequena obra com um olhar compenetrado, querendo criar luz em meio à escuridão.

- Por que não usa o carrinho velho do Sean? – Stuart perguntou.

- Que carrinho?

Stuart guiou Brìghde até o pequeno depósito – não maior do que um banheiro minúsculo – e desenterrou um carrinho feito a partir de uma caixa de madeira, muito simples, com rodinhas de borracha gasta e um cordão para que pudesse ser puxado.

- Por favor, só não deixe Sean ver – Stuart pediu.

Brìghde empilhou seu projeto de barraca sobre o carrinho; começou a arrastá-lo pela calçada. Não era tão pesado, mas, por vezes, as rodinhas empacavam em rachaduras abertas no concreto, exigindo que Brìghde puxasse com força, quase perdendo o fôlego. Os pedestres achavam a cena curiosa. Brìghde não levou muito tempo até atingir o centro. Sua primeira vítima foi a revistaria e charutaria local – The Donkey and The Dog. Ela estacionou o carrinho diante da vitrine e abriu a portinha da loja.

- Posso abrir uma barraca na frente da loja? – Brìghde perguntou.

O balconista pareceu perdido. Era um senhor, bigode já grisalho, topo da cabeça levemente calvo. Ele parou momentaneamente a conversa que tinha com um cliente para melhor observar a garota.

- Me desculpe. O quê? – fez.

- Uma barraca, na frente da loja – Brìghde explicou. – Eu quero abrir uma.

O homem encarou o carrinho de Brìghde através do vidro.

- Bem, mas é claro que não, mocinha. Você vai ficar na frente da minha vitrine. E, depois, vai atrapalhar todo mundo. Onde estão os seus pais?

Mas Brìghde apenas suspirou.

- Obrigada – disse. Voltou às ruas.

O carrinho parecia observá-la com vida própria, como se quisesse condená-la pela idéia pouco brilhante. Brìghde não desistiu. Puxou sua barraca até a floricultura e a cafeteria. As donas negaram amigavelmente.

- Mas eu só quero montar uma barraca – Brìghde, desesperançada, explicava.

- Por que não faz isso perto de casa, meu bem? – perguntou uma gerente. – É uma idéia tão boa.

- Mas aqui há mais pessoas – e Brìghde arqueou as sobrancelhas com seriedade, como a indicar que a mulher perderia uma brilhante oportunidade. – Pode dar bastante dinheiro.

Ela parou, cerca de uma hora após o início de suas andanças, em frente ao pub, levemente cansada. Sentou sobre o carrinho e pensou, os braços cruzados. O centro era o lugar perfeito para se abrir um pequeno negócio. O vento soprava fracamente. Era uma região onde as pessoas se acumulavam para que pudessem proteger umas às outras do frio e do vazio.

Brìghde ouviu a sineta do pub tocar. Jareth Whitney colocou a cabeça para fora, espiando Brìghde com curiosidade.

- Ah, pensei que tivesse visto mesmo uma criança – ele sorriu. – Mas o vidro é meio escuro. Achei que pudesse ser um mendigo – e Jareth riu

Brìghde agarrou a corda do carrinho.

- Eu já vou indo – ela declarou. – Não se preocupe.

Jareth ergueu as sobrancelhas.

- Por quê? O que vai fazer com esse monte de madeira?

- Montar uma barraca. Mas não tenho um lugar.

Jareth refletiu.

- Pode montar aqui – ele disse, por fim, pisando para fora do pub. – É uma barraca do quê? Doces?

- Limonada.

- Limonada?

- Bruno consegue fazer dinheiro com isso, então eu também posso – Brìghde protestou. – É simples.

Jareth coçou a nuca.

- Bem. Não é muito comum, mas talvez funcione.

- Então – Brìghde iniciou com um tom hesitante. – posso ficar aqui?

- Pode.

Jareth pareceu medir mentalmente o tamanho da barraca, ainda que estivesse desmontada.

- É, pode sim – garantiu.

Brìghde montou sua barraca; era um monstro de madeira nua, feio à distância, com uma porta de armário servindo de suporte. Brìghde, ereta, aguardou atrás da barraca.

- Precisa de um banco? – Jareth perguntou.

- Preciso – admitiu Brìghde.

Jareth trouxe um dos bancos que costumava usar no balcão. Brìghde ainda jazia com sua barraca vazia, escrutinando a rua com o olhar, como se selecionasse vítimas.

- Onde está sua limonada? – Jareth perguntou.

Brìghde não tinha limonada alguma.

- Eu preciso ir para casa fazer – ela encarou Jareth. – É verdade, não se preocupe. Eu tenho tudo planejado.

- Por que não serve chocolate quente?

- Chocolate quente?

- Certamente é bom no inverno.

- Nunca fiz chocolate quente.

- Já fez limonada?

Brìghde vacilou brevemente.

- Não, mas... é só espremer o limão, não é?

E ela espremeu limões imaginários com as mãos.

- Não exatamente – Jareth franziu o cenho. – Espere aqui.

Jareth retornou algum tempo depois com uma garrafa térmica e copinhos plásticos. Pousou tudo sobre o balcão da barraquinha.

- Pronto.

- E agora?

- Bem, sirva.

Brìghde tinha métodos agressivos demais para parecer simpática – embora, em teoria, a imagem de uma menina de seis anos pudesse ter o poder de derreter corações alheios. A presença mágica de Jareth Whitney, porém, atraía clientes como um doce atrairia formigas. Todos conheciam o dono do pub; Jareth era um tipo de celebridade local. Bêbados afogavam suas mágoas no balcão do Toad; pessoas sóbrias afogavam suas mágoas no balcão do Toad. Ninguém melhor para se prestar ao papel de garoto propaganda.

- Um novo empreendimento, Jerry? – perguntou um passante. Usava um gorro cinzento de inverno, o rosto marcado por rugas, barba por fazer. Olhou para Brìghde e sorriu com dentes amarelos.

- Digamos que eu esteja patrocinando – Jareth respondeu.

- O que estão distribuindo aí? – perguntou o homem.

- Estou vendendo chocolate quente – Brìghde informou.

- É mesmo? – riu o homem. – Por quanto?

- Setenta pence um copo.

- Bem...

O homem vasculhou os bolsos.

- Parece justo – concordou. – Eu acho.

Pagou os pence devidos a Brìghde e recebeu um copo cheio de chocolate fumegante e espumante. Bebeu um gole. Pareceu aprovar com um aceno de cabeça.

- Você fez? – perguntou.

Brìghde sorriu.

- Mas é claro.

- Está muito bom.

A propaganda oral rendeu movimento mediano à barraca de Brìghde. Os clientes iniciais eram primariamente clientes do próprio pub. Algum tempo se passou antes que Brìghde recebesse seus primeiros fregueses infantis.

- Olá, meninas – Brìghde cumprimentou. – Querem chocolate quente?

Eram duas garotinhas mais novas do que Brìghde. Olhavam para a barraca como se não pudessem enxergar nenhuma magia particular. Uma mulher veio caçando ambas as meninas; parecia ser a mãe.

- Jessie, Maggie – ela repreendeu. – Não corram mais, OK?

- A menina está vendendo alguma coisa – disse uma das garotinhas.

- Chocolate quente – Brìghde corrigiu com um tom acadêmico.

- É mesmo? – perguntou a mãe.

Estudou Brìghde e sua garrafa térmica, parecendo desconfiar de que não seria veneno o que a garota serviria às filhas.

- Bem, OK – disse a mulher. – Dois copos.

Brìghde serviu com prazer. Alguns minutos depois, experimentando uma ausência de fregueses, estava dentro do pub, andando de um lado para o outro, conversando com Jareth; este servia algumas canecas de cerveja para clientes, que pareciam levemente aturdidos pela garota.

- Eu estava pensando – Brìghde dizia. – E acho que talvez eu possa ganhar mais dinheiro se vender doces... ou coisas assim... ou talvez colocar um cartaz colorido. E aí talvez mais crianças venham. E crianças sempre gastam muito. O que você acha?

- Eu acho brilhante. Mas, Brìghde, pare de atropelar as pessoas. E eu não acho uma boa idéia deixar a barraca sozinha.

Brìghde parou e observou seu negócio em ascensão através do vidro; correu para fora do pub. Sua barraca permanecia intacta. Quando precisava renovar o estoque de chocolate quente, levava a garrafa até Jareth, que não parecia indisposto com a situação.

A tarde vinha se aproximando quando Brìghde avistou Sean. Mãos nos bolsos, parecendo acanhado, ele tomou proximidade da barraca.

- Então você realmente está fazendo isso – disse. – Papai e mamãe me contaram. Estão orgulhosos do seu espírito empreendedor. Ou é o que eles chamam.

- Você não ganha desconto por ser meu irmão – avisou Brìghde.

Sean pareceu ofendido.

- Bem, eu não vim comprar nada. Eu vim buscar você.

- Veio?

- Sim. Vou tomar conta de você esta noite.

- Como sabia onde eu estava?

- Jareth Whitney ligou há umas duzentas horas para deixar mamãe avisada.

Os olhos de Brìghde se estreitaram levemente.

- É claro – ela resmungou.

Sean pareceu reparar em alguma coisa. Era o carrinho de infância, esquecido atrás de Brìghde.

- Aquele é o meu... – ele começou, a expressão subitamente nostálgica, subitamente irritada; mas não terminou. – Esqueça. Bem, o expediente acabou. Arrume as coisas e vamos embora.

- Eu preciso passar no mercado – Brìghde alertou.

- Por quê?

- Preciso comprar copos de plástico – a menina balançou o saquinho quase vazio de copos que Jareth havia cedido. – E coisas para fazer chocolate.

Sean consentiu. Brìghde desarmou a barraca e puxou o carrinho pela rua. O aquecedor do mercadinho funcionava como um manto de lã reconfortante quando entraram. O céu já estava escuro. Brìghde estacionou o carrinho perto do caixa.

- OK, vá às compras – Sean disse. – Eu não sei o que você quer.

Brìghde encheu a cestinha com barras de chocolate. E então não soube como prosseguir. Parecia difícil sem Jareth por perto. Leite – ela precisaria de leite. Era óbvio que sim. E chocolate. E mais alguma coisa? Ovos?

- Pronto? – a voz irritante de Sean alcançou seus ouvidos. Estava parado à extremidade das estantes de produtos. – Por que está demorando?

- Estou escolhendo – Brìghde disse. – Eu não sei o que comprar.

- Como assim?

- Eu não sei como fazer chocolate.

- Mas estava vendendo, não?

- Jareth fez para mim.

- Oh, perfeito – Sean suspirou.

Encostou a testa sobre uma das prateleiras, encarando uma embalagem de biscoitos, provavelmente sonhando com lugares mais distantes, longe do universo onde precisava acompanhar sua irmã de seis anos. De repente, erguendo os olhos, pareceu perceber alguma coisa.

- Ei, Matilda – ele chamou.

Brìghde seguiu o olhar do irmão e avistou, no final do pequeno corredor, uma garota morena, cesta em mãos, aparentemente surpresa. Ela era petit e frágil. Usava uma saia um pouco além dos joelhos.

- Olá, Sean – a garota sorriu.

- O que faz aqui? – Sean perguntou.

Matilda, confusa, ergueu a cesta.

- Comprando coisas. E você?

Sean indicou, parada entre os dois, Brìghde.

- Minha irmã abriu um negócio.

Matilda riu.

- Abriu?

- Sim. Viemos comprar os ingredientes. E eu preciso vigiá-la, de qualquer forma.

- Chocolate quente – Brìghde contou. – É o que eu estou vendendo.

- Parece apropriado – disse Matilda.

- Você sabe fazer, não sabe? – Sean indagou. – Eu me lembro de dizer algo assim.

Brìghde ergueu suas própria cestinha.

- Pode me ajudar? – perguntou.

- Bem, é muito simples – Matilda disse. – Só precisa de chocolate e leite. – e ela pescou uma barra da cesta de Brìghde. – Mas não este aqui. É melhor chocolate puro.

Sean seguiu as duas enquanto selecionavam a quantidade necessária.

- Como andam as coisas? – ele perguntou. – Com você.

- Bem. Quero dizer... normais, eu acho.

- O que veio comprar?

- Ah – Matilda sorriu. – Ingredientes para bolo. É uma forma produtiva de ocupar o meu tempo.

A cabeça de Sean pareceu formular alguma coisa. Brìghde aguardou.

- Você gostaria de ter mais o que fazer? – ele perguntou a Matilda.

A garota pareceu pega de surpresa.

- Às vezes, sim. Mas as coisas andam caóticas agora que Rudolph está aqui, e que estão arranjando uma casa nova.

- O que acha de ser babá ocasional? – o rapaz quis saber.

Matilda não soube o que responder. Pareceu, por um instante muito breve, que ela havia esperado por outra proposta. Sean lançou um olhar explicativo a Brìghde.

- Bem, eu não sei – Matilda respondeu sinceramente. – Eu nunca cuidei de crianças. Não que eu não goste delas. Depois, sua irmã não parece precisar. Ela tem o próprio negócio.

- Na verdade – Brìghde interrompeu. – eu gostaria de que fosse minha babá. Eu realmente gostaria.

A expressão seguinte de Sean indicou que nem mesmo uma chuva de meteoritos poderia ter parecido mais surpreendente. Ele, porém, sorriu, como se agraciado pelo fato de que crianças eram criaturinhas espirituosas.

- É mesmo? – Matilda considerou. – Se você realmente quiser...

- Brìghde.

- Brìghde – Matilda sorriu. – Podemos pensar a respeito.

- É claro – Sean concordou, quase aliviado.

Quando deixavam o mercado, Sean tentou um cumprimento de mãos espalmadas com a irmã, coisa que Brìghde, com um revirar de olhos, negou.

- Você não tem senso de humor – Sean resmungou.

- Agora você vai ficar feliz – Brìghde disse. – Já que não vai mais precisar me vigiar.

- É verdade – Sean concordou. – Mas um dia, Brìghde, você também vai ter vinte e quatro anos, e vai entender a minha posição.

 
 
 
11 August 2009 @ 08:01 pm

A campainha de Devon tocou muitas vezes antes que o rapaz estivesse de pé para atender a porta. Reconheceu o visitante como Aidan – recentemente desaparecido em decorrência das núpcias. Devon não escondeu sua surpresa; embora a cara amassada de sono pudesse dizer muitas coisas.

- Você está sempre dormindo, Devon? – Aidan perguntou.

- Dormir me ajuda a pensar – Devon abriu caminho. – Então. Olá.

- Olá.

Aidan entrou com Sean a segui-lo. O último, por sua vez, empurrava levemente os ombros de Brìghde, como se tivesse de forçá-la. Brìghde tirou o capuz e olhou em volta.

- É a minha casa – Devon apresentou.

- Sean me contou algumas coisas que você viu, Devon – Aidan anunciou.

Devon encarou Sean com certa hesitação.

- Olhem, eu acho que é realmente melhor eu não falar mais do assunto para vocês – ele disse. – A Kayla já quase me bateu por causa disso. Eu não estou a fim de criar mais animosidade.

- A Kayla? – Sean indagou.

- É. Ela acha que estamos fazendo alguma merda juntos, nós três – e Devon baixou os olhos para Brìghde. – Desculpe. Ela acha que estamos fazendo algo que ela desaprova.

- Ei, não olhem para mim. Eu passei uma semana prova. O que quer que tenha sido feito – Aidan se defendeu. –, vocês fizeram.

- Eu não fiz nada. Eu só fui brevemente seqüestrado – Sean resmungou.

Devon suspirou. Contou novamente a história de seu breve encontro com Carlisle às portas da Ordem. Aidan ouviu com atenção.

- Bem, é exatamente o que eu havia dito a vocês, o que não torna o caso uma novidade – disse.

- Foi só uma forma de dizer que eu acredito em você.

- Interessante. Mas como é que o plot se une?

Devon nada respondeu. Encarou Brìghde.

- Eu não acho que devemos discutir o assunto na frente de uma criança.

Aidan ergueu as sobrancelhas. Também olhou para Brìghde, que parecia apenas esperar.

- Você tem um brinquedo ou alguma coisa? – Aidan perguntou. Devon arregalou os olhos. – Ah, isso serve – e Aidan pegou um pacote de salgadinhos aberto – Deus sabia há quanto tempo. – Aqui, Brìghde. Pegue. Vá comer lá fora.

Mas Brìghde, percebendo que tencionavam descartá-la, agarrou firmemente o sofá de Devon.

- Vamos lá, Brìghde – Aidan pediu.

- Está frio lá fora – Sean protestou.

- Ela está bem agasalhada – Devon disse.

- Vamos, Brìghde. Aqui, pegue esse pacotinho de diversões que o tio Aidan tem.

- Eu acho que não – Brìghde negou.

Foi preciso que Aidan e Devon puxassem a menina para fora. Brìghde gritava e arranhava o sofá. Devon começou a achar o estardalhaço demais.

- Helga comprou essa capa de sofá para mim.

- Eckhart, seja um homem. É uma menina de seis anos.

Conseguiram tomar Brìghde no colo e carregá-la para o capacho da entrada. Quando Brìghde tocou o solo, entregaram o pacote de salgadinhos em suas mãos e fecharam a porta. Ouviram a menina protestar e bater.

- Eu quero entrar – ela demandava.

- Conversa de adultos, Brìghde – Aidan explicitou, ocupando o sofá com os demais.

- Eu não quero ficar aqui.

- Por quê não? Vai ficar entediada.

- Porque eu quero ouvir a conversa – Brìghde rugiu guturalmente, como se estivesse se transformando em algum tipo de Hulk. A voz pareceu encher Sean de medo. A menina, então, fez uma pausa. Caiu o silêncio.

- Acho que ela desistiu – Aidan considerou.

Alguns segundos depois, porém, começaram a ouvir um raspar irritante vindo da porta. Um gravetinho se insinuava por sob a soleira.

- Brìghde, não seja ridícula. Não vai conseguir cavar concreto – informou Aidan.

O gravetinho foi subitamente puxado após algumas tentativas. Desapareceu. A voz de Brìghde não foi mais ouvida. Os três aguardaram.

- Ela desistiu – decidiu Aidan.

Devon suspirou.

- E vocês – Aidan lançou um olhar sério aos dois. – não abram a boca para dizer a minha esposa que eu tratei uma criancinhas assim.

- Oh, eu não pensaria nisso – Sean disse com azedume.

- Vamos lá, Sean. Ela vai ficar bem.

- Eu deveria tomar conta dela.

- Bom, se queria tanto, por que não nos impediu? – Aidan ergueu as sobrancelhas.

Sean nada respondeu.

- Você realmente precisa arranjar uma babá para ela.

- Podemos voltar ao assunto? – pediu Devon.

- Sim. A Ordem.

- A Ordem. Carlisle está escondendo alguma coisa.

- E supostamente havia capturado o assassino, mas foi desmentido – Aidan completou. – Por um jornal que agora é publicado por uma esposa-troféu de um magnata.

- Você conhece os Mapother? – Sean perguntou.

- Bem. Quando se é do círculo, você ouve a respeito.

O círculo. Sean assentiu.

- Então? Estamos do lado de quem? – Devon perguntou.

- De ninguém, por enquanto. Precisamos descobrir a verdade primeiro.

- Você pode ter uma das suas...

E Devon parou. Tentou fazer com que o silêncio terminasse sua frase. Aidan compreendeu.

- Eu preciso do Whitney para isso – ele revelou. Deu de ombros.

Aquela confissão pareceu contribuir para a desaprovação de Sean:

- Escutem, vocês estão indo muito longe. Há meios mais legais de se manter um compromisso com a verdade – ele entreabriu a boca; conteve algum tipo de desabafo mais explícito. – O Sr. McBain, obviamente, teve problemas com isso. Mas podemos ter nossa posição sem que você tenha de se drogar e o Devon tenha de eventualmente apanhar da Kayla. Imagens desconexas... não querem dizer nada. E, acreditem, eu lido com isso há muito tempo.

- Às vezes querem dizer alguma coisa – Devon interferiu.

- Nem sempre – Sean empurrou os óculos contra o cenho. – Nem sempre querem dizer alguma coisa. Ah, não, minto. Às vezes querem dizer alguma coisa: besteira. Você quer ter outro ataque por aí, Aidan? Vai deixar a Genevieve viúva com uma semana de casamento?

Aidan emudeceu. Fitava Sean com seriedade.

- Esse negócio está subindo demais à cabeça de vocês.

- Tem alguma idéia melhor, Sherlock?

O rosto de Sean corou de indignação.

- Eu tenho sim, se quer saber.

- Então compartilhe.

Sean pareceu pego de surpresa. Gaguejou.

- Eu não acho que entenderiam.

E estava de pé no minuto seguinte.

- Querem saber? Eu desisto. Podem confabular à vontade. Vou levar minha irmã para casa. Eu achei que voltaria com mais bom-senso, Aidan.

Sean deixou os dois sozinhos e abriu a porta. Desapareceu da vista de ambos. Aidan e devon puderam escutá-lo murmurar algo parecido com um palavrão.

- Sinto muito a respeito disso – Devon disse.

- Ele está certo – Aidan cedeu. – Parcialmente. Alguém mais sabe que você vê essas coisas?

- Não. Para dizer a verdade, até algum tempo atrás, nem mesmo eu sabia.

- Legal. Continue mantendo um segredo.

- Bem...

- Sim?

- Kayla sabe.

- Contou a ela? – Aidan pareceu surpreso.

- O que eu poderia fazer? Ela estava lá, me olhando com aqueles olhos de assassina!

Aidan inspirou profundamente.

- OK. Foi um deslize.

- Não me diga como lidar com – e Devon não soube como nomear sua condição. – isso.

- Longe de mim.

Ouviram os passos apressados de alguém correndo em direção à porta que Sean deixara aberta. Aidan e Devon aguardaram, alertas, que o visitante surpresa se revelasse, incapazes de abandonarem o sofá. Era o próprio Sean. Ele entrou ofegante.

- Brìghde – disse. – Ela sumiu.

 

 

 

Brìghde não havia se afastado o suficiente. Ela contornara o jardim inexistente de Devon para alcançar a rua oposta. Os salgadinhos que Aidan oferecera tinham sabor de isopor e cheiro de meias envelhecidas. Brìghde largou o saco dentro da primeira lixeira que encontrou. Subia a rua quando avistou uma barraquinha montada à calçada. O letreiro escrito com caligrafia infantil informava que ali se vendia limonada gelada. Duas crianças estavam pacientemente sentadas do outro lado do balcão, aguardando, uma jarra de limonada e inúmeros copos de plástico à disposição das duas. Brìghde parou diante de seus rostinhos esperançosos.

- Bom dia, cliente – uma menina de trancinhas loiras cumprimentou. Teria apenas dois anos a mais do que Brìghde. Seu semblante sardento estava vermelho. – Gostaria de um copo de limonada gelada?

- É inverno – Brìghde sentiu a necessidade de explicar.

A menina perdeu o sorriso.

- Bem, como você acha que suíços tomam sorvete vivendo na Suíça? – ela perguntou. – Frio combina com frio.

- É isso aí – concordou o menino que ocupava o lugar ao lado da garota; poderiam ser gêmeos em sua loirice.

- Eu não quis dizer que não seja legal – Brìghde protestou.

A menina loira se inclinou sobre o balcão e apertou seus olhinhos, parecendo querer estudar Brìghde; decerto via as olheiras que vinham se formando por causa das noites passadas em claro.

- Bem, você realmente precisa de uma limonada – declarou a menina. – Cinqüenta pence por um copo. Mas você pode levar dois copos por oitenta.

- Um copo – Brìghde pediu.

A menina loira servia um copinho de plástico quando uma voz arrastada soou Às suas costas:

- Ei, esperem um minuto.

Uma figura redonda surgiu atrás dos gêmeos. Brìghde conhecia o filho mais novo do prefeito, Bruno. Ele parecia haver se recuperado bastante desde o incidente que causara alguns meses antes; crescera e engordara ainda mais.

- Ela é uma cliente – a menina loira declarou, quase assustada.

Bruno fitou Brìghde.

- Ela parece muito pequena para andar com dinheiro por aí. Você tem dinheiro, menina?

Brìghde, zangada, tirou as moedas que tinha de dentro do bolso. Bruno, após uma vistoria, pareceu satisfeito.

- OK. Podem servir. Mas sempre se certifiquem – ele disse aos gêmeos. – que a pessoa tem dinheiro, antes que ela encoste a boca cheia de amebas na limonada.

As crianças assentiram veementemente. A menina voltou a servir o copo de Brìghde.

- Não tanto assim! – Bruno gritou. A menina quase derramou a limonada. – Ela é pequena. Não precisa de tudo isso.

Brìghde, em meio à confusão, sentiu uma mão firme tocar seu ombro. Ela quase congelou. Bruno pareceu se assustar. Ficou subitamente quieto.

- Um preço justo é um preço justo, Bruno – Scotty disse.

Bruno nada respondeu de imediato.

- Você gostaria de tomar uma deliciosa limonada gelada? – perguntou o garotinho loiro. – Senhor?

Scotty baixou os olhos para a criança como se observasse uma forma de vida curiosamente inferior.

- Sim – ele sorriu um sorriso apavorante.

O menino prontamente serviu um segundo copo, enquanto sua gêmea entregava a limonada de Brìghde.

- Está colocando seus primos para ganharem dinheiro para você? – Scotty perguntou a Bruno.

A expressão chocada do menino logo se transformou em raiva.

- Bem. Eles não tinham mais nada para fazer – justificou. – E eles estão se divertido. Não estão?

Os garotinhos assentiram novamente.

- Uma barraca de limonada em pleno inverno escocês – Scotty continuou a sorrir. – É provavelmente a melhor idéia que alguém já teve.

- Eu vi em um filme – Bruno respondeu.

- Aqui está, senhor – o menino ergueu o copo de limonada para Scotty.

- Obrigado – e Scotty pareceu fazer um leve esforço para se lembrar do nome dele. – Garoto – finalizou.

Scotty pagou pelas duas limonadas e puxou Brìghde para longe. Ele provou um gole de limonada antes de engasgar subitamente e cuspir tudo.

- Isso parece mijo – ele reclamou. – Maldito...

Mas olhou para Brìghde, que o encarava com os olhos arregalados.

- Esqueça – Scotty pediu.

- Ele é gordo – Brìghde colaborou.

- Ele é – Scotty concordou.

Alçou Brìghde do chão para carregá-la no colo. Não tinha a menor dificuldade em conter a menina com apenas um dos braços.

- Eu sabia que você ia voltar – Brìghde explicou. – Eu disse ao Sean, mas ele não acreditou.

- Como sabia que eu havia partido em primeiro lugar?

Mas Brìghde não respondeu. Scotty avistou algo subindo a rua.

- Aquele não é o seu irmão? – perguntou.

Brìghde reconheceu Sean correndo em direção aos dois. Aidan e Devon seguiam o rapaz em ritmo menos urgente. Brìghde suspirou dramaticamente e afundou o rosto sobre o ombro de Scotty.

- Brìghde! – Sean exclamou, sem ar, parando em frente ao rapaz. – Sua peste! Por que fugiu?

- Vocês me expulsaram – Brìghde declarou.

- Brìghde, boa menina – Aidan sorriu. – Você nos guiou até ele.

- Quê? – indagou Brìghde.

- Pode, por favor, colocá-la no chão? – Sean pediu.

Encarava Scotty de uma altura consideravelmente mais baixa. Scotty parecia conhecer aquela desvantagem.

- Venha buscá-la – ameaçou.

- Vamos lá – Sean suspirou.

Scotty largou Brìghde. Ela o encarou com um olhar triste enquanto era devolvida ao chão. Sua mão foi imediatamente reclamada pelo irmão mais velho.

- Você realmente voltou – Aidan parecia satisfeito.

- O quê? Estavam esperando por mim? – Scotty perguntou. – Nós somos a comitiva do anel ou algo assim?

- Eu preciso falar com você – Aidan empregou o tom preciso naquela frase.

Scotty pareceu capturar o significado.

- Precisa?- Sim. Eu suponho que tenha lido os últimos jornais.

- Eu li.

Eles se encararam brevemente. Aidan olhou para Sean.

- Que seja – o último disse. – Façam o que quiserem. Eu vou levar Brìghde para casa.

E o rapaz se afastou sem nada mais dizer.

- Ele não anda muito confortável com o caso do McBain – Aidan explicou.

- Por quê? Era o pai dele? – Devon indagou.

- Ele é só... o Sean.

- Tocante – Scotty disse.

- Eu realmente preciso falar com você – Aidan voltou ao assunto.

- Eu sei o que vai me pedir.

- Sabe?

- Sei. E você sabe o que eu penso.

- Scotty – Aidan pediu com entusiasmo moderado. – Eu tenho motivos para acreditar que aquela teoria sobre espadas e Carlisle estar escondendo alguma coisa não era tão implausível.

Scotty olhou de Devon para Aidan.

- Eu sei – confessou, parecendo subitamente ranzinza.

- Quer dizer que vai nos ajudar?

Aidan ergueu as sobrancelhas. Scotty fitou o rapaz em silêncio. Seus músculos da mandíbula estremeceram brevemente, como se ele desejasse morder alguma coisa.

- Veremos – ele disse.

- Veremos?

- Eu disse veremos, Aidan – Scotty ergueu a voz, pouco convidativo, abandonando os dois rapazes para trás.

 

 

 

Kayla respondeu ao chamado da campainha com surpresa. De todas as pessoas que não esperava encontrar ali, à entrada de sua casa, o pai era a mais improvável visita. Ele estava sóbrio como sempre – como se não houvesse ainda abandonado o serviço. Fitou a filha com certa espera.

- Não vai me convidar para entrar? – perguntou.

- Claro – Kayla se recompôs da surpresa. – Entre, pai.

Christopher aceitou o convite. Ele lançou um breve olhar à casa da filha, parecendo avaliar se aprovava ou não as escolhas de Kayla. Mas não foi o assunto que trouxe à tona.

- Kayla, eu vim aqui falar sobre as suas associações – ele disse.

Kayla quase bufou uma risada.

- Minhas associações?

- Seus amigos.

- Ah – fez a garota. – Bem, a minha vida social não anda lá grande coisa.

Christopher fitou a filha com frieza.

- Sabe do que estou falando.

- Não sei, na verdade. Mas imagino que Carlisle tenha dito alguma coisa.

Christopher pareceu subitamente hesitante. Ele desviou o olhar.

- William Whitney fez uma visita inesperada à Ordem esta semana.

Kayla cruzou os braços.

- Scotty.

- Sim. Ele. E, aparentemente, ele agrediu um oficial.

- Vocês querem que eu o prenda?

- Não, Kayla. Eu quero que você apenas se mantenha longe de pessoas em que Carlisle não confia.

- As pessoas em que Carlisle não confia.

- Aquele Devon Echkhart também.

- Certo.

- Está sequer me ouvindo?

- Estou. Bastante. Mas, me diga, e aquele novo bam-bam-bam, Crawford? Carlisle confia nele?

Christopher não respondeu.

- Porque eu não sei se confio – Kayla prosseguiu.

- Não cabe a você decidir.

- Não, não cabe, não é mesmo? Precisamos só obedecer em silêncio. Primeiro, Christian. Depois, Crawford. E agora aquela lunática que comprou o jornal. E ainda precisamos seguir cegamente as ordens de Carlisle – a garota esbravejou.

Christopher segurou o dedo em riste em direção à filha, como se pretendesse corrigir uma menina. Ele parou, com os dentes cerrados, e desistiu do que quer que diria.

- Esqueça. Foi um erro vir aqui.

Caminhou resoluto em direção à porta. Parou ainda no corredor.

- Você poderia visitar sua mãe de vez em quando. Ela apreciaria.

Kayla acalmou os nervos minimamente.

- Pai – ela pronunciou, a voz mais leve.

Mas Christopher já havia partido.

 
 
10 August 2009 @ 08:50 pm

Era uma convivência estranha e pacífica. Edward mantinha a coisa amarrada a uma mesa de madeira esburacada – um dos poucos móveis discerníveis como tais que haviam restado dentro da cabana. Ele precisava abandonar seu estudo durante algumas horas diárias; era necessário hidratar a pele com freqüência religiosa.

A coisa mostrava paciência. Edward vinha administrando calmantes à criatura. Ela quase sempre estava anestesiada demais para perceber o que ocorria. Não reagia aos sons dos bisturis e facas estalando.

Seu tórax aberto cheirava à podridão. Estava respirando, irremediavelmente viva, mas sem um coração – restara apenas o vazio entre artérias rompidas bruscamente. Como se alguém simplesmente houvesse arrancado o que tanto desejava com as próprias mãos. Os outros órgãos cumpriam sua função básica – mas adquiriam um gradativo tom cinzento; tom este que parecia se espalhar como uma infecção lenta. Aqueles pedaços de tecido e de carne eram quase porosos.

A criatura ainda precisava comer. Ainda tinha sede. Seus prazeres eram os mais crus possíveis. Tinha o comportamento típico de um animal; mas era, como Edward comprovara inúmeras vezes, fisiologicamente humana.

Christian trazia caças ocasionais. Ele, por vezes, despejava-as à porta da cabana. Em outras ocasiões, entrava para vistoriar o trabalho de Edward. A criatura parecia fasciná-lo. Ficava estendida, arfando levemente, seus olhos revirados para o vazio.

Christian largou com cuidado a carne congelada de cervo que trouxera aquele dia. Caminhou em direção à mesa. O peito da criatura estava costurado. O corte original – aquele que reclamara seu coração – era púrpura.

- Ele não sente nada – Edward murmurou. – Está dopado.

Christian olhou para trás. Edward parecia perfeitamente mesclado às velharias da cabana. As janelas haviam sido vedadas com tinta escura. O cheiro era quase insuportável. Edward baixou os olhos para os quilos de carne congelada.

- Você comprou? – perguntou.

- Me pareceu prático.

- Será melhor que cace por conta própria.

- Quer que eu guarde em algum lugar especial? – Christian zombou.

- Eu não me importo. São as sobras dele.

Christian assentiu. Observou a criatura por mais alguns segundos.

- Você não come nada – ele disse. – Nem um pedaço. Por quê?

- Eu não como carne – Edward explicou.

Deixou o canto no qual jazia enfurnado para se aproximar da mesa. Edward era apenas um pouco mais baixo do que Holden. Usava uma máscara cor de pele, com a mesma consistência de uma borracha. Suas mãos estavam protegidas por luvas cirúrgicas. Ele e a criatura formavam um par que Christian imaginaria ver em uma história de terror. Seria difícil determinar quem se pareceria mais com o monstro de Frankenstein.

- É melhor eu ir, então – decretou Christian.

Viu os olhos anulados de Edward se voltarem contra ele. Não trocaram palavras. Christian ficou satisfeito por respirar novamente o ar livre. Olhou para trás e achou perturbador que Edward conseguisse passar tanto tempo em meio à escuridão, no mais profundo silêncio – ele e uma criatura com tanta humanidade quanto a de um cachorro. Christian bufou e encarou o horizonte quieto da floresta. Não havia nada por perto.

- É o senso de dever – escutou a voz de Edward.

Christian levou um susto. O outro estava à porta da cabana. Não parecia querer colocar os pés para fora – tampouco indicava ter medo de fazê-lo.

- É mesmo? – perguntou Christian.

- É claro que sim. Mas você não se apega muito a isso. Você muda de lado muito depressa. Não sei se Harvey fez bem em confiar em você. Mas já que está aqui...

Christian teve vontade de ordenar que Edward saísse de sua cabeça. Pareceu, porém, um risco. Christian conhecia as capacidades de Edward. Sua aparência desfigurada passava uma impressão errônea de limitações.

- Você está com medo de mim? – Edward perguntou, o tom quase a indicar que a possibilidade não lhe ocorrera. – O que eu acabei de dizer sobre o senso de dever? Se meu irmão quer que continue vivo, eu não vou matá-lo, Christian.

Mas havia uma alternativa subentendida àquela ordem. Porque poderia chegar o dia em que Harvey não mais desejasse ver Christian vivo.

- Diga a Holden – Edward murmurou, descartando o assunto. – Que estou pronto.

Christian recebeu a incumbência com uma interrogação.

- Pronto? – indagou.

- Pronto – Edward confirmou. Voltou à cabana.

 
 
10 August 2009 @ 07:33 pm

A casa parecia harmoniosa demais para o estilo de vida de Aidan; não que Aidan houvesse sido algum tipo caótico quando solteiro. Mas existira um traço de desordem masculina antes que trocasse votos com Genevieve. Sean inspirou um perfume delicado.

- O que houve aqui? – perguntou.

- Não queira saber – resmungou Aidan. – Bem. Nyneve – cedeu.

- Sinto muito.

Algumas das malas ainda não estavam desfeitas. Brìghde espiou o interior de uma sacola. Havia roupas perfeitamente dobradas, envolvidas por um delicado papel manteiga. Brìghde roçou o dedo sobre o tecido sedoso.

- Vocês fizeram muitas compras – ela disse.

- Genevieve fez – Aidan deu de ombros. Olhou de Brìghde para o irmão mais velho desta.

Sean apenas suspirou.

- Brìghde arrumou confusão na escola. Meus pais estão chocados – sussurrou.

- Ela roubou o lanche de alguém?

Aidan riu.

- Onde está a Genevieve? – Sean indagou.

- Foi ver a família. Foi o momento oportuno para chamar você.

- Por quê?

Aidan não disse nada. Ele desdobrou um jornal que deixara sobre a mesa de centro. A manchete ficou à vista de Sean. Não teria sido necessário. Sean conhecia aquelas palavras muito bem.

- Algo aconteceu enquanto eu estive fora? – Aidan questionou.

- Ah, bem – Sean começou. – A Ordem pensou ter finalmente capturado o assassino. Saiu nos jornais.

- É, eu vi essa edição também.

- E então o Sr. McBain vendeu o Helmeth Report. E a manchete que tem em mãos foi a notícia do dia seguinte.

- O Sr. McBain vendeu o jornal? – Aidan pareceu surpreso. – Para quem?

- Para os Mapother. Não são daqui. A esposa do Sr. Mapother era uma das sobrinhas da Laura Bell.

- É bastante coisa para uma semana.

- É mesmo. Bem. Não se culpe. Não esperava que tivessem o jornal de Helmeth em Madri. Mas agora você já sabe.

- E como estão as coisas?

Sean deu de ombros.

- Devon anda com uma teoria da conspiração por aí. Ele acredita no que você disse, sobre a espada. Ele acha que carlisle está escondendo alguma coisa. Disse que viu.

- Viu?

- Sim, viu.

Sean estendeu a mão em direção a Aidan, como se pretendesse simular um cumprimento; mas, então, percebendo a patética explicação que ofereceria, desistiu.

- Bem, ele viu, de um jeito que vocês vêem as coisas. É difícil explicar.

Aidan dobrou o jornal novamente. Ele mordeu o lábio enquanto largava a edição sobre o montinho de papel acumulado. Sean percebeu que ele já vira e revira os jornais o suficiente.

- Eu preciso falar com o Scotty.

- Boa sorte – Sean riu. – Eu não acho que ele esteja na cidade.

- Ele não está?

- Se for esperto, não.

- Ele vai voltar – Brìghde anunciou. Dois pares de olhos se voltaram contra ela. Brìghde pareceu hesitante. Ela mordeu casualmente a ponta da luva sem dedos que usava. – Quero dizer. Se o trem não atrasar.

- E Devon? – Aidan perguntou.

Os dois continuaram encarando Brìghde.

- Provavelmente em casa – Sean arriscou.

 
 
31 July 2009 @ 04:34 pm

O médico limpou a sobrancelha ferida com um cotonete apropriado. A borla de algodão ficou manchada de um sangue intenso e quente. Ele tentou sorrir com alguma simpatia para a garota. Tudo o que Viviane ofereceu em retorno foi um olhar distante.

- Pronto. Assim vai ficar bem melhor.

O médico cortou o fio usado para aplicar os pequenos pontos. Começava a guardar o material quando ouviu a voz de Viviane:

- Obrigada.

O agradecimento parecia suave. Ela ergueu a mão para tocar a costura. O médico impediu aquele ato ao segurar com delicadeza o pulso da garota.

- Não faça isso. Não queremos que infeccione.

Viviane obedeceu.

- Vou ficar com uma cicatriz permanente?

- Não se preocupe com isso – sorriu o médico. A vaidade habitual da adolescência o entretia. – Seu rosto ainda é jovem. Se alguma coisa sobrar, será imperceptível. Como uma marquinha.

Viviane assentiu. Já tinha, aos quinze anos, um corpo que caminhava para a maturidade hormonal. A barra da saia do vestido azul cobria dois joelhos ralados. Um fio solitário escapava da costura para se estender até os tornozelos da garota.

Ela pareceu alerta ao escutar passadas duras. O pai surgiu logo atrás do médico. O Sr. Clancy era um homem alto como sua prole. Tinha cabelos negros e espessos perfeitamente cortados. O rosto era emoldurado por uma barba levemente grisalha.

- Como ela está? – perguntou.

- Muito bem – disse o médico. – O corte não foi muito profundo.

O pai encarou Viviane em silêncio; não era exatamente alívio o que sua expressão mostrava.

- Bom – ele concluiu.

Uma segunda garota veio se unir aos demais. Ela parou ao lado do Sr. Clancy – como seu cão de guarda pessoal. Era parecida com Viviane. Tinha um sorriso leve e desentendido.

- E você, Muriel? – perguntou o médico.

- Eu estou bem – a segunda garota respondeu.

O Sr. Clancy guiou o médico até a saída. Um carrinho preto estava estacionado em meio ao enorme pátio. Fazia frio durante o inverno passado na fronteira.

- Bem, Timothy – espero que elas fiquem longe de objetos afiados. – o médico desejou.

- Brigas de meninas são passageiras – o Sr. Clancy argumentou. Apertou a mão do médico brevemente. – Me desculpe por tê-lo arrancado de casa. Obrigado por ter vindo.

- Sempre um prazer.

O médico partiu em seu carro. Timothy retornou à sala em que deixara as garotas. Muriel e Viviane continuavam cada uma em seu lugar – como se o tempo não houvesse passado durante a ausência do pai.

- Eu espero que o que aconteceu não se repita – alertou Timothy. Havia uma qualidade felina em seu comportamento. Era um gato doméstico e uma pantera ao mesmo tempo. Era a mão de ferro que controlava a casa e o Bennaitche Brugh. – Vocês são irmãs, não duas marinheiras brigando. São aliadas.

Ele resumiu sua opinião. O copo de scotch que havia enchido ainda no início da tarde permanecia sobre a mesa. Timothy ergueu o copo e desapareceu em direção à varanda. Viviane volta a cabeça à irmã.

- Sua vadiazinha. Eu sei o que você está tentando fazer.

- Não se meta no meu caminho e eu não fico no seu – Muriel disse. Eram palavras com um forte sentimento de ameaça para uma garota de catorze anos.

- Eu ainda vou retribuir – prometeu Viviane.

- Quando quiser – e Muriel deu de ombros. Ela deixou a irmã sozinha com a mesma indiferença de antes. Seguiu o caminho do pai. Talvez conseguisse extrair algum favor dele. Era óbvia a preferência de Timothy por Muriel. Sibilla e Viviane sempre precisaram correr atrás dos bastidores.

 

 

Era madrugada quando a porta do quarto de Muriel se abriu. Viviane observou a irmã dormir com serenidade antes de dar um passo à frente. Ela fechou a porta atrás de si. A escuridão cegou seus olhos momentaneamente. A luz natural da noite penetrava o quarto de Muriel com discrição. Era refletida no espelho da penteadeira. Viviane abriu uma das gavetas do móvel feito sob medida. Tirou um estojo delicado de veludo. Havia um colar de pérolas em seu interior. Viviane ergueu a jóia e sorriu. As pérolas pareciam brilhar na escuridão. Viviane puxou um lápis de olho com a mão livre.

Muriel despertou apenas quando ouviu a cama ranger. Mas já era tarde. Viviane tapou sua boca, sufocando um gripo confuso. Muriel pareceu reconhecer a irmã. Sua expressão assustada transmutou-se para raiva. Viviane apontou o lápis que carregava em direção a uma das pupilas perfeitamente azuis de Muriel. A irmã arregalou os olhos.

- Cale a boca – Viviane mandou.

Muriel gemeu. Viviane desgrudou a mão dos lábios da irmã. Mostrou o colar de pérolas.

- Eu vou levar ele comigo. Entendeu? Como pagamento – ela tocou o corte ainda fresco que sustentava junto à sobrancelha. – Se disser alguma coisa, eu sumo com ele. Sei como você ama essa coisinha.

- Mamãe me deu – Muriel protestou. – Ela queria que ficasse comigo.

- Você deveria ter pensado nisso antes de mostrar suas garras.

Muriel tentou forjar um semblante inocente.

- Eu não queria te machucar, Viviane.

- É mesmo?

Um facho de luz invadiu o quarto com um rangido. A porta se abrira. Muriel sorriu, esperando ver a imagem salvadora, o pai, pronto para punir Viviane. Mas somente a figura desengonçada de Sibilla entrou em foco. Ela pareceu primariamente assustada por ver a irmã mais velha agachada sobre Muriel. Não disse nada.

- Feche a porta – Viviane mandou.

- Sibilla, ela está sendo má comigo! – Muriel choramingou.

Sibilla deu um sorriso torto.

- Eu não ligo.

E fechou a porta, deixando que as duas resolvessem seus problemas.

- Ela não liga – Viviane lembrou com um sorriso.

- Papai vai matar você!

- Eu não contaria com isso. Eu posso contar o que você anda fazendo com aquele garoto Anderson. Papai ficaria decepcionado se soubesse que o canarinho dele corre o risco de manchar a honra da família com alguém tão... baixo.

Muriel pareceu petrificada. As palavras só retornaram alguns segundos depois:

- Eu não estou fazendo nada.

Viviane riu. Passou a perna por cima do corpo de Muriel e desceu da cama. Muriel percebeu que Viviane usava apenas suas roupas de baixo. Ela caminhou até uma réplica em miniatura de carrossel que a irmã tinha no quarto.

- Vi, não seja má. Eu realmente não quis te machucar – implorou Muriel.

Viviane agarrou um dos cavalinhos com os dedos; girou o carrossel. O brinquedo produzia um som similar ao de uma caixinha de música. Muriel ficou subitamente quieta. Esperava que o coração de Viviane amolecesse. Mas esta se virou em direção à cama com o lápis de olho erguido. Era como sua espada.

- Eu vou pensar no assunto. Mas vai ser minha última demonstração fraterna.

Viviane caminhou até a porta.

- Por favor, não conte ao papai sobre Brian Anderson – Muriel requisitou rapidamente.

Pobre Brian Anderson. Perdera o pai durante a guerra. Era a única fonte de sustento atual da mãe. Os Anderson eram reconhecidamente honestos – mas igualmente empobrecidos. Viviane sentia alguma pena do rapaz. Não passaria de um joguinho para Muriel, que evidentemente estabelecera metas mais altas, talvez até impossíveis.

- Eu não prometo – Viviane disse.

 

 

Foi requisitada pelo pai quando o dia raiou. Viviane trançara os cabelos longos. Não seguia a moda atual dos penteados que permitiam aos homens enxergarem o pescoço das mulheres. Mas qual das irmãs seguia?

Timothy esperava em seu escritório. Indicou o sofá de couro como se a filha não fosse apenas sua filha, mas uma cliente. Ele tinha olheiras profundas marcando as pálpebras. Talvez houvesse dormido mal. Seu humor seguia impassível.

- Viviane – ele disse. Sorriu quase que imperceptivelmente. – Como está hoje?

- Bem, pai – a garota respondeu.

Timothy indicou a própria sobrancelha. Viviane instintivamente ergueu a mão para tocar o ferimento.

- Dói? – perguntou o pai.

- Nem um pouco.

- Muriel tem unhas afiadas.

- Não foram as unhas.

Mas Viviane não desenvolveu. Timothy tampouco pediu por um esclarecimento. Ele pigarreou. A garganta decerto estava ardida pela bebida. Era o único vício ao qual Timothy se permitia. Levava, no geral, uma vida regrada, impondo uma rotina similar às três garotas. Timothy nunca ficava doente. Era inexplicavelmente sadio – e prosseguira assim mesmo quando o surto fatal de gripe se alastrara por aquela região. Nenhuma de suas filhas foi tocada pela influenza.

- Eu tenho uma surpresa para você – Timothy anunciou.

- Surpresa? – Viviane arqueou a sobrancelha ferida.

- Sim. Você está seguindo um bom caminho, Viviane. Sua mãe certamente...

Mas Timothy refreou o discurso.

- Ele está na sala – disse.

Viviane ponderou sobre o ele em questão. Timothy aparentemente nada mais tinha a dizer. A garota deixou o sofá e o escritório. O resto da casa parecia abandonado. Não havia sinal de Muriel ou de Sibilla. Viviane caminhou até a sala.

Reconheceu o perfil do rapaz mesmo à distância. Ele aguardava pacientemente. Ergueu os olhos para Viviane ao descobrir sua figura esguia. Estava de pé – e sua presença de alguma forma conseguia ser o centro do ambiente. Sorriu obliquamente.

- Viviane Clancy. Como está?

Viviane retribuiu com um sorriso educado.

- Harvey – ela pronunciou o nome do rapaz com alguma estranheza.

 

 

Muriel estava deitada sobre a grama. O sol fraco queimava devagar seus olhos apertados. Ela tinha uma mão sobre o peito, escutando os batimentos do próprio coração. Foi atraída por um movimento e som de farfalhar. Sibilla vinha do bosque. Os cabelos compridos cobriam o rosto. Ela parecia uma daquelas ciganas pedintes enlouquecidas que às vezes passavam por Bennaitche Brugh. Carregava algo entre as mãos em concha.

- Você o viu? – Muriel perguntou.

Sibilla lançou um olhar assustado à irmã.

- Eu o vi.

- Parece que Viviane conseguiu o que queria.

- Parece? – Sibilla parou diante da irmã.

- Eu ouvi papai falando sobre casamento. Eles parecem interessados. Os Mordant.

- Que bom para eles.

Muriel sentou.

- O que tem aí?

Sibila olhou para as próprias mãos. Abriu os dedos. Havia um cadáver de pássaro sobre suas palmas.

- Um pássaro morto.

Muriel conteve sua repudia.

- O que vai fazer com ele?

- Venha comigo – Sibilla convidou.

Muriel seguiu a irmã mais nova para a parte leste da propriedade. Havia um bosque menor, com uma cabana abandonada entre suas copas escuras. Aquela cabana já havia sido usada para guardar mantimentos durante dias mais difíceis. Muriel costumava se encontrar com Brian Anderson não muito longe de onde estavam agora.

Sibilla abriu a porta da cabana. Um caldeirão de ferro pequeno – uma panela – ardia sobre a lareira acesa. Havia livros e pertences de Sibilla espalhados. Muriel se perguntava há quanto tempo a irmã mantinha aquele reduto.

- Poderia ter matado um pássaro mais perto daqui – disse.

- Não posso matar. A natureza precisa oferecer – Sibilla explicou.

Ela depenou o pássaro sem nenhuma comoção.

- Você acha que Viviane vai aceitar? – Muriel perguntou.

- O quê?

- A proposta.

Sibilla não pareceu suficientemente interessada.

- Talvez ela não perceba o que tem em mãos.

- Você está com inveja porque é ela quem vai se casar com ele, e não você.

- Não é verdade.

- É claro que é. Você é a criança adorada do papai. Tenho certeza de que ele teria preferido ter você como primogênita. Mas, infelizmente, temos a Viviane. E a Viviane é o que importa.

Sibilla havia crescido subitamente durante o semestre passado. Ela parecia magrela como um menino. Terminou sua tarefa e soprou as penas do pássaro para longe das próprias mãos. Caminhou até o caldeirão e despejou o cadáver depenado para dentro da água borbulhante. Algumas gotas acertaram sua pele. Sibilla recuou com um gemido.

- Cuidado – disse Muriel.

Sibilla pegou uma colher de pau comprida e começou a revirar a água do caldeirão. O pássaro não demorou a amolecer. Seus pedaços começaram a se desprender. Um cheiro horrível invadiu a cabana.

- O que pensa que vai fazer com isso? – indagou Muriel.

- É assunto meu.

- Isso serve para ver o futuro?

Sibilla encarou a irmã.

- É o que você quer?

Muriel nada disse. O futuro era algo assustador de se contemplar.

- Meu futuro é bem longe daqui – Sibilla murmurou. – Bem longe.

- O que quer dizer?

- Conviver com pessoas. É nojento. Nós somos The Good People. Não deveríamos estar aqui, vivendo assim, como mundanos.

- O que mais faríamos?

Sibilla não respondeu.

- Você quer saber o que vai acontecer com Viviane? – perguntou.

Muriel ficou inquieta.

- Eu vejo muitas coisas para Viviane – Sibilla disse, olhando para o caldeirão como se fosse um espelho do destino. – Pergunte.

- Ela se casará com ele?

- Faça outra pergunta.

Muriel não soube o que mais lhe interessava a respeito do futuro da irmã. Sibilla parou e molhou um dedo na água que escorria de sua colher de pau. Levou o mesmo dedo à boca. Muriel fez uma careta enojada.

- Ela vai ter um filho? – indagou.

Sibilla ainda parecia deslumbrada pelo gosto salgado que Muriel imaginou que água teria.

- Sim. Ela vai.

O desânimo tomou conta de Muriel.

- Então acho que isso responde à minha primeira pergunta.

Sibilla olhou para a irmã com uma expressão esquisita de zombaria. Começou a rir. Muriel levou muitos anos para compreender o motivo.

 

 

 

Muriel havia envelhecido com a parcimônia que marcava sua família. Ela ainda conservava o cabelo negro e cheio mesmo quando prestes a alcançar a casa dos cinqüenta.  A vida idílica que levava em Bennaitche Brugh favorecia a boa saúde – aquilo e uma herança genética tão antiga que sua própria veracidade dera lugar a lendas.

Muriel lia calmamente quando Kentigern entrou. Era sempre um momento de deleite revê-lo pela manhã. Kentingern era lindo e jovem. Ele tinha o frescor de uma idade onde todos os amores eram intensos – tanto quanto eram frívolos. Vinha sendo sua nova companhia desde alguns poucos anos atrás. Kentigern chegara como um cachorro abandonado, estremecendo de frio, tendo pago sua viagem através de caronas e embarques clandestinos. Ele ouvira falar do lugar; ouvira falar de coisas que poderia aprender. Como Muriel negaria? Não olhando para aqueles dois olhos intensos. Kentigern talvez pudesse saciar sua sede insaciável durante algum tempo. Até que Muriel se cansasse; até que ele houvesse aprendido o que tanto queria aprender.

- Há uma pessoa querendo falar com você – Kentigern anunciou. – Ele diz ser seu sobrinho – o tom de voz parecia indagar se a palavra sobrinho tinha algum significado especial para Muriel; como um código, talvez.

A disposição de Muriel despencou como se atirada para dentro de um frio penhasco. Kentigern percebeu a mudança óbvia. Ele sorriu levemente.

- Algo que prefere esquecer? – perguntou.

Muriel ajeitou a saia antes de se levantar.

- Não. Eu quero vê-lo – disse.

Suas palavras pareceram decepcionar Kentigern. Não obstante, ele não ofereceu protesto algum. Muriel caminhou até a sala sentindo a hesitação percorrer seu corpo, bem como a raiva – o que ele fazia ali? Havia certas coisas que Muriel queria esquecer; outras, preferiria poder matar.

Ela quase estacou. Pensou que via um fantasma do passado diante de si. William em uma segunda vinda. Perfeitamente reconstituído ao que era quando haviam se encontrado pela primeira vez, quase trinta anos atrás. Muriel retesou o queixo.

- É você – ela constatou.

Scotty confirmou com um gesto leve. Ele olhava para Muriel com uma expressão alerta.

- O que faz aqui?

- Vim ver você – Scotty disse. – Tia. É para isso que servem famílias.

Muriel deu uma risada amargurada.

- Pode ir direto ao assunto.

- Tem notícias da sua irmã?

Por um breve momento, Muriel pensou que Scotty falava de Viviane, mas então foi lembrada de que o corpo desta já repousava alegremente no interior de uma tumba fria. Ela cruzou os braços.

- Sibilla pode ter virado pó. Quem sabe?

- Eu sei. Ela está em Helmeth.

A notícia surpreendeu Muriel apenas um pouco.

- É típico dela, não é?

- Eu não sei o que Sibilla andou tomando, mas ela andou fazendo associações minimamente... interessantes. E vai gostar de saber: ela está grávida.

O estômago de Muriel quase subiu à boca.

- Grávida?

- Bastante grávida.

Muriel enrrugou a testa. Foi procurar a ponta do sofá para que pudesse sentar e refletir. Não convidou o sobrinho a acompanhá-la.

- Se você a vir de novo, mate-a – Muriel pediu. – Tenha cuidado com Sibilla – e ergueu os olhos para o rapaz. – Mas não veio aqui para me falar dela.

- Não. Eu queria que me falasse sobre uma família chamada Mordant.

O rosto de Muriel empalideceu. Ela segurou a voz por mais tempo do que o devido. Scotty aguardava com o que parecia ser a consciência de que atingira um ponto vital.

- Então ele finalmente lhe contou – Muriel riu subitamente.

Scotty ergueu as sobrancelhas.

- Uma velha em Londres me contou. Uma que parece gostar de corações. Ela parece ser uma conhecida antiga da família.

- É mesmo?

Scotty passou a língua por cima do lábio mordido. Ainda sentia o sabor do beijo da garota de dentes afiados.

- Muriel, eu vim de muito longe... eu apanhei de todas as formas possíveis e paguei um preço inocente por uma informação que talvez tenha sido cara demais...

- E?

- Sem jogos.

Muriel suspirou. Deu um sorriso quase nostálgico.

- Bem, os Mordant. Há muito tempo não ouço falar deles. Eles eram uma família.

Ela encarou Scotty com maldade nos olhos.

- Sua mãe deveria ter sido a feliz noiva do primogênito. Mas então ela achou que seu pai era um candidato mais adequado. Você pode imaginar.

- É o fato mais interessante sobre eles?

- Os Mordant eram quase tão velhos quanto nós, William. Faz idéia de quanto custa manter o sangue vivo?

Scotty não respondeu. Muriel jogou os ombros para trás.

- O acordo era simples. Sua mãe deveria dar um primogênito aos Mordant. E, então, conceber uma menina para nós. Simples. Mas ela achava que sabia mais da vida do que nosso próprio pai. E, bem... e aí está o resultado – Muriel relanceou Scotty.

- Obrigado pela parte que me toca.

- Eu deveria ter sido a segunda escolha mais lógica – Muriel prosseguiu. Sentia a amargura nas próprias palavras. – Se eu pudesse conceber. Sibilla, é claro, estava fora de questão. Então nunca mais vimos os Mordant. Era o que queria saber?

Scotty negou.

- Os Mordant eram colecionadores? – perguntou.

- Colecionadores?

- Fetiches. Álbuns de figurinhas. Espadas?

Muriel estremeceu.

- Não sei do que está falando.

- Muriel...

- William, eu vou lembrá-lo de que está em minha casa, sem ser convidado.

Scotty ponderou a respeito daquelas palvras. Ele certamente tinha noção de que tudo aquilo – a casa, Bennaitche Brugh, mesmo a liberdade de Muriel – poderia ter lhe pertencido, caso Timothy não houvesse deserdado Viviane em favor da segunda filha. O olhar que Scotty lançou ao teto incomodou Muriel acima de tudo; o rapaz parecia avaliar o ambiente como um futuro comprador.

- Pretende me expulsar? – indagou ele.

- É um desafio?

- Não, Muriel. É uma pergunta. Eu não vim até aqui medir forças como um desocupado. Eu não venho com prazer falar com você. Já percebi que interações entre nós não dão certo. Você se lembra do meu aniversário de dez anos? Eu me lembro.

- Você tem o humor desviado do seu pai, bastardinho.

- Igualmente, piranha.

- Muriel? Está tudo bem? – a voz de Kentigern foi ouvida.

Ele estava parado entre a sala e o corredor, esperando, os olhos fixos sobre Scotty. Era óbvio que não tecia uma boa imagem a respeito do outro. Kentigern apenas desejava que Muriel esclarecesse se o rapaz era concorrência ou um problema. Muriel suspirou.

- Kentigern, este é William Whitney, meu sobrinho. Filho de Viviane.

Kentigern sabia quem era. Muriel desconfiava já haver desabafado o bastante.

- Olá – Scotty cumprimentou com um sorriso absolutamente canalha.

Kentigern não respondeu.

- Você pode ir – Muriel disse. – Está tudo bem.

A garantia não pareceu convencer Kentigern. Ele saiu a contragosto.

- Ele é o seu novo garoto objeto? O que aconteceu com aquele outro... qual era o nome? – perguntou Scotty.

- Presentes vêm e vão, William. Por que não falamos um pouco de você?

- De mim?

- Eu sei da vida obscena que você leva, dormindo com quase tudo que se mova. Deveria ser mais cuidadoso. O que você carrega dentro de si ainda é valioso. Por mais que seus pais tenham estragado.

- Você está preocupada com o meu sistema reprodutivo, Muriel?

Muriel deixou que sua indiferença preenchesse o vazio.

- Me conte sobre os Mordant e a espada alegórica – Scotty insistiu.

Uma idéia cruzou os pensamentos de Muriel. Ela olhou para o sobrinho e enxergou a oprtunidade.

- Há um preço para tudo, William.

- O que eu tenho para lhe oferecer?

Muriel somente sorriu. Viu Scotty perder a expressão segura conforme a proposta começava a falar por si mesma. Ele parecia chocado.

- Não – recusou com a voz rouca.

- Por que não?

- Porque eu disse não, Muriel.

- Pode escolher a garota que quiser. Não precisa nem mesmo saber o nome dela. Tudo o que eu quero é uma criança.

- Vocês são completamente malucos.

- Somos tão diferentes assim?

Muriel resignou com um riso leve.

- Se quer tanto assim saber dos Mordant, William, por que não conversa com o seu pai? Ele certamente é uma fonte mais rica em detalhes do que eu sou.

- O que quer dizer?

Uma porta aberta suspendeu a conversa. Uma moça de cabelos acastanhados adentrou, curvando ao poder do frio, o rosto avermelhado. Fechou a porta com alívio. Percorreu a sala com os olhos e então percebeu que interrompera algo. Sua boca rosada se entreabiu para pedir desculpas. Ela era linda, perfeita – Scotty pareceu reconhecer o fato com sincera surpresa. Talvez jamais houvesse visto um rosto tão insuportavelmente harmonioso quanto aquele.

- Está tudo bem, Norwenna. Não precisa sair. Ele já estava de saída.

Scotty encarou Muriel em silêncio. Muriel se levantou para contornar Norwenna. Segurou os ombros da jovem como se exibisse um presente.

- Ela não é linda? – perguntou.

- Uma das suas pupilas? – questionou Scotty.

- Uma das mais talentosas. Meu convite ainda está de pé, William.

Scotty arregalou os olhos. Não parecia saber como deveria se sentir a respeito. Ali estava Norwenna, feita para alguém como ele, para atender aos instintos mais básicos. Ali estava Muriel, empurrando a garota como empurraria uma vaca reprodutora, tentando compensar o mundo por sua própria incapacidade de procriar. Era um preço alto demais.

- Uma palavra? – Scotty requisitou. – Você e eu.

Antes que Muriel pudesse se dar conta do que ocorria, Scotty agarrou seu braço, arrastado a tia para fora. Ventava bastante. Muriel quase teve um choque térmico.

- Sem jogos, Muriel. Eu não sou seu boi premiado.

- Você...

- Cale a boca. Sabe quantas vezes eu quis... apenas...

Fez como se pretendesse essganar a tia ali mesmo. Mas Scotty parou. Ele largou o braço de Muriel com brusquidão. Foi necessário tomar distância. Muriel não pôde deixar de observar aquela luta interna com prazer. Ela massageou o pulso dolorido.

- Você tem talento, William. Não se esqueça disso.

- Continue falando, vadia. Talvez eu escute algum dia.

Os olhos de Scotty encontraram uma figura conhecida. Muriel percebeu que Kentigern observava os dois – como um guardião fiel. Aquilo pareceu irritar Scotty ainda mais.

- Ah, e o que você quer agora? – perguntou.

- Quero que vá embora – Kentigern respondeu. – Está perturbando Muriel.

As palavras tiveram o efeito contrário sobre Scotty. Ele avançou contra Kentigern. Muriel precisou se colocar entre ambos para evitar um choque. Segurou os ombros de Scotty.

- Não, William. Deixe-o em paz, por favor.

Scotty baixou os olhos para tia. Pegou as duas mãos de Muriel e calmamente fez com que o deixassem. Não disse nada a ela; não disse nada a Kentigern. Ele apenas deu as costas e rumou para longe. Muriel ainda acompanhou sua silhueta brevemente antes de explodir contra Kentigern.

- Não o toque! Você ouviu?

Kentigern pareceu sinceramente surpreso.

- Queria proteger você.

Muriel gargalhou.

- Eu não preciso de proteção. Você não sabe o que ele é, Kentigern.

- Eu sei. Você me contou, está lembrada?

- Você não falará com ele; você não chegará perto dele. Entendeu?

Kentigern não reagiu.

- Entendeu?

O rapaz balançou a cabeça.

- Entendi.

Muriel suspirou.

- Vá. Faça o que estava fazendo. Eu preciso tomar algum ar – e ela abraçou o próprio corpo. – Aquele bastardo de Viviane tem o dom de me desconcentrar.

Kentigern voltou para dentro da casa. Encontrou Norwenna sentada sobre o sofá. Ela parecia séria. Era uma estátua de porcelana viva. Os anéis dos cabelos despencavam até o colo.

- Viu o que aconteceu? – a jovem perguntou.

- Não apenas vi como quase tomei parte – Kentigern explicou.

- Então ele é o sobrinho desgarrado – considerou Norwenna.

- Cuidado.

- Cuidado?

- Com o que está pensando.

Mas Norwenna apenas relaxou contra o estofado caro.

- Eu não vou ficar aqui para sempre. Muriel é boa, mas não é o suficiente.

- Vai partir o coração dela – Kentigern riu.

Norwenna exibiu um de seus sorrisos que tinham o poder de destroçar sentimentos masculinos.

- Não. Você vai partir o coração dela, Kentigern. Eu vou apenas decepcioná-la.

 
 
30 July 2009 @ 04:07 pm

As coisas começaram a desandar durante a aula de matemática. Brìghde estava concentrada demais nos números que tinha diante de si para perceber que a carteira à sua direita havia sido ocupada pelo homem sem rosto.

O homem sem rosto não fazia nada. Mantinha os braços esticados sobre a mesa, seus dedos compridos cravados às quinas como garras. Ele encarava a lousa com a serenidade estática de uma pedra. Brìghde lentamente foi atraída por sua presença.

Houve um momento breve onde trocaram um único olhar. O homem sem rosto também não tinha olhos como aqueles que os outros homens possuíam. Seus globos oculares eram cegos. Brìghde tornou a baixar a cabeça. Mas o homem continuou fixo.

Brìghde fez o que julgava ser correto. Agarrou o livro que lia e o atirou contra o homem sem rosto. Este não gritou. O único berro de dor ouvido escapou da boca de Aileen. Ela cobria a testa com uma das mãos.

- Você é maluca? – gritou.

Brìghde suspendeu a respiração. O homem sem rosto havia desaparecido. Jamais estivera ali. Aileen sempre ocupara a carteira à direita – desde que Brìghde chegara como uma recolocada.

- Eu sinto muito – Brìghde pediu.

Mas Aileen começou a chora.

- Ela jogou um livro em mim! – a menina gritou.

Brìghde recolheu o livro antes que maiores provas pudessem se voltar contra ela.

- Todo mundo viu! – acusou Aileen. – Professora, ela jogou um livro em mim!

A boca entreaberta da professora demonstrava que ela estava chocada. Largou seu material e caminhou até Aileen. O impacto havia deixado a marca da brochura marcada sobre a testa da menina. Aileen soluçava alto. Os demais alunos se inclinavam sob a própria carteira, curiosos, alguns rindo; outros, mais corretos, genuinamente surpresos.

- Brìghde – a professora parecia incrédula.

- Foi um acidente – Brìghde disse em tom de promessa.

- Não foi! Ela mirou e atirou!

- Brìghde. Venha comigo – pediu a professora.

Agarrou a mão da menina. Brìghde estava muda demais para protestar.

- Aileen, você também.

Guiou as duas meninas – uma por cada mão – pelo corredor. Deixou Aileen na enfermaria. Brìghde foi levada à coordenadoria. A professora parou diante de um banco estofado.

- Fique aqui – mandou.

Brìghde não desobedeceu. Ela ainda carregava o livro de matemática como uma arma pessoal. A professora teve uma conversa rápida com a coordenadora. Brìghde viu a professora indicar a própria testa. A coordenadora absorveu as palavras ditas com bastante calma. Convidou Brìghde para adentrar sua saletinha.

A coordenadora era uma mulher baixa e rechonchuda. Tinha um nariz aquilino, cabelos cortados bem rente à nuca, gigantescos óculos de grau; vestia um suéter que provavelmente lhe pertencia havia mais de trinta anos.

- Brìghde, aqui, sente – ela pediu.

A professora parecia presente apenas para supervisionar. Foi dispensada com um gesto de cabeça discreto partindo da coordenadora.

- Agora que estamos a sós – a mulher sorriu. – Me conte o que aconteceu.

- Foi um acidente.

- Eu tenho certeza de que foi.

A coordenadora tinha um sorriso amável.

- Eu sei que você passou por uma experiência um pouco traumática, Brìghde.

Brìghde não disse nada. Apenas cruzou os braços e ergueu o queixo levemente. Não queria falar sobre o assunto.

- Brìghde?

- Eu não quis machucar ninguém.

- Mas eu nunca pensei que quisesse. Quero apenas que se abra comigo. Você anda nervosa? Triste?

Brìghde arregalou os olhos.

- É claro que não.

- Você se importaria se nós conversássemos com a sua mãe?

- Nós?

- Eu.

Brìghde negou ao balançar a cabeça freneticamente.

- Não, obrigada.

A coordenadora sorriu com mais doçura. Ela ergueu a cabeça quando ouviu a maçaneta da porta girar. Aileen entrou com um curativo grudado à testa. Seu rosto ficara inchado após tanto chorar. Ela olhou para Brìghde com raiva.

- Aileen, você está melhor? – perguntou a coordenadora.

- Sim. Mas a minha cabeça dói.

- Vamos ligar para a sua casa.

- Ela vai ser expulsa? – Aileen perguntou.

A coordenadora pareceu surpresa.

- Vamos resolver a situação da melhor forma. Queremos que todas sejam amigas.

A coordenadora, então, dirigiu um olhar insinuante a Brìghde. A menina soube o que era esperado. Ela murchou brevemente sobre a cadeira.

- Me desculpe, Aileen – pediu. – Eu não queria jogar um livro na sua cabeça.

Aileen não reagiu. Seu orgulho ferido parecia bem representado através da marca que formaria um calo sobre sua testa lisa e perfeita. A porta foi aberta uma segunda vez. A professora colocou a cabeça para dentro. Mostrou um sorriso amarelo.

- Aileen, vamos buscar suas coisas, OK? Sua mãe está vindo.

Aileen apertou o curativo com cuidado.

- Que bom. Eu tenho uma festa de princesa hoje – ela resmungou.

- Posso ir com você? – perguntou Brìghde.

Aileen pareceu tão revoltada que sequer respondeu. Seguiu a professora para fora da sala. Brìghde voltou a encarar a coordenadora.

- Eu não queria ir, mesmo – declarou.

A coordenadora não pôde fazer nada além de sorrir.

 

 

 

Brìghde abriu a porta de casa ouvindo o telefone tocar. Ela correu até o aparelho e alçou o gancho. Deixou a mochila cair sobre o chão.

- Alô? É da escola de Brìghde. A Sra. Harrington está?

- Ela não está aqui. Ela viajou – e Brìghde desligou o telefone.

A mãe estava na cozinha. Brìghde decidiu estudar o terreno. Abriu sorrateiramente a porta da geladeira, murmurando uma canção. Deborah sorriu ao descobri-la ali. Estava agachada diante do forno aceso.

- Ah, Brìghde, você já chegou. Estou fazendo bolo. Quer raspar a tigela?

- Claro.

Brìghde pegou a tigela melada de creme de leite e chocolate. Comeu silenciosamente, observando a mãe.

- Como foi na escola?

- Bem – Brìghde garantiu. – Eu estou na frente de todo mundo.

- Que bom saber.

O telefone tocou novamente. Brìghde largou a tigela.

- Eu atendo – comunicou.

- Não – Deborah desamarrou o avental. – Não se preocupe. Mamãe está esperando uma ligação.

Os olhos de Brìghde se arregalaram conforme ela observou Deborah se afastar. Seguiu a mãe sem nada dizer. Deborah ergueu o telefone.

- Alô?

Um sorriso logo se formou em seu rosto.

- Maureen, olá – Deborah cumprimentou. Fez uma pausa. – Estou assando o bolo agora mesmo. Sim, está perfeito.

Brìghde sentiu o peso abandonar seu corpo como um balão estourado perderia o ar. Ela suspirou e recolheu a mochila largada. Caminhou até o quarto. Deborah e Maureen fofocaram por vinte minutos seguidos. Quando Deborah terminou, retornou à cozinha, partindo em pedaços perfeitos o bolo que assara.

- Brìghde, o bolo está pronto – anunciou.

Brìghde deixou o quarto sentindo que o universo voltava à perfeição original. Escolheu um dos pedaços ricamente decorados com coco ralado. Ela tentava enfiar o pedaço inteiro dentro da boca quando o som devastador do telefone soou mais uma vez.

Brìghde parou.

- Talvez seja Maureen de novo – Deborah disse para si mesma.

A menina não se moveu. Continuava com metade do bolo obstruindo a boca. Ouviu Deborah caminhar até o telefone.

- Alô? – escutou a mãe dizer. – Sim, é ela.

O silêncio seguinte foi demais para que Brìghde pudesse suportar. Ela engoliu um pedaço de bolo atrás do outro – como se jamais pudesse voltar a prová-los enquanto estivesse viva. Deborah suspirou longamente.

- Brìghde – ela chamou. Não parecia contente. – Venha até aqui.

 

 

Sean aguardou diante do capacho dos McGregor. Tocou a campainha uma única vez. Estremeceu de frio enquanto esperava. Recebera a ligação de Aidan durante o almoço. Havia sido uma convocação acima de um convite amigável.

O próprio Aidan abriu a porta.

- Harrington, você veio mesmo – ele sorriu. Encontrou a expressão ranzinza do outro. – Algum problema.

Sean indicou algo por cima do ombro. Brìghde estava alguns passos atrás do irmão, agachada, cutucando a neve com sua mão enluvada. Aidan ergueu as sobrancelhas.

- Eu preciso ficar de olho nela – Sean explicou. – Foi uma ordem.